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por
MARIA JOÃO CAETANO
Assalto. Escritor perdeu praticamente tudo o que tinha escrito
Quando abriu a porta de casa, no domingo à noite, depois de ter passado o fim-de-semana fora, Miguel Sousa Tavares percebeu logo que algo de anormal se tinha passado: havia luzes acesas, gavetas abertas, a casa desarrumada. "Vi logo que alguém tinha estado ali. Ou que ainda estava", conta o escritor. Apreensivo, percorreu as divisões até se certificar que o ladrão (ou ladrões) tinha de facto passado por ali e levado duas coisas apenas: a carteira com todos os seus documentos e o computador portátil que, entre outras coisas, continha as duas obras em que Sousa Tavares se encontrava a trabalhar.
Miguel Sousa Tavares chamou imediatamente a polícia e espera que todas as diligências estejam a ser feitas para encontrar o responsável. Mesmo não querendo acreditar tratar-se de um assalto cometido por alguém que o odeia ou que quer ameaçar a sua escrita, não pode deixar de reparar que está perante um "ladrão intelectual" e "muito arrumado", pois apesar de ter andado por toda a casa não partiu nem estragou nada e levou unicamente o computador, desprezando, por exemplo, o livro de cheques ou o tinteiro em prata que também estavam em cima da secretária.
"Levaram o meu coração e o meu cérebro", diz o autor de Equador, referindo-se ao portátil. "Hoje em dia o computador funciona como um arquivo pessoal, tinha lá tudo." Fotografias, moradas, documentos relativos a negociações de edições, documentos de pesquisa e consultas. E os dois manuscritos que andava a escrever e dos quais não tinha cópia de segurança.
"Estava a escrever um conto de viagens passado no deserto e uma peça de teatro, uma experiência que me tinha apetecido fazer", conta Miguel Sousa Tavares. "Já tinha parado de escrever há três meses mas agora ia voltar. Eu funciono muito assim. Paro por uns tempos e depois volto quando sei exactamente o que vou escrever. E agora ia voltar. A minha intenção era terminar as duas obras até ao Verão."
E agora? Vai abandonar estas obras ou vai tentar recuperar aquilo que já tinha escrito? Sousa Tavares não sabe ainda responder a esta questão, embora reconheça que no que toca à peça de teatro será muito difícil rescrever o que já tinha escrito uma vez que se trata de diálogos.
E a propósito desta situação recorda o caso verídico de T. E. Lawrence (conhecido como "Lawrence da Arábia") que, em 1919, numa mudança de comboios na estação de Reading, em Inglaterra, perdeu a sua mala e com ela grande parte do manuscrito que iria, mais tarde, dar origem à obra autobiográfica Os Sete Pilares da Sabedoria. Lawrence teve de escrever praticamente tudo de novo, de memória uma vez que já tinha deitado fora as notas originais, e isso não impediu que este livro, onde relata a sua experiência com as forças rebeldes árabes (1916-1918), se tornasse uma obra de referência e desse origem ao famoso filme de 1962, Lawrence da Arábia, realizado por David Lean.
"O meu caso não é tão grave", brinca Miguel Sousa Tavares. Quem sabe se este revés não irá também dar origem a uma obra literária inesquecível.|
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