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por
João Miranda
investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com
As eleições americanas despertam na opinião pública portuguesa um interesse que, por vezes, ultrapassa o interesse pela política interna. Os portugueses não se limitam a seguir e a analisar as eleições americanas. Tomam partido. São militantes. Tentam convencer e ganhar votos. Difamam os candidatos adversários. Repetem a propaganda dos partidos americanos. Temos casos que oscilam entre o paroquial e o cómico, como o caso do jornal A Capital, que em 2004 declarou o seu apoio a John Kerry (sem grande impacto no resultado final), ou o caso do especialista em assuntos americanos de um canal de televisão que, em vez de fazer reportagens, faz tempos de antena de Barack Obama.
O argumento de que o presidente dos Estados Unidos tem uma grande influência em todo o mundo não chega para justificar este interesse. Os portugueses não vão conseguir influenciar o mundo através do presidente dos Estados Unidos. A opinião e o voto dos portugueses não conta. Quanto muito os portugueses poderiam influenciar o que se passa no mundo influenciando a política externa do seu próprio país. Só que os portugueses não se interessam pela política externa do estado português. O interesse pelas eleições americanas, ao criar uma sensação ilusória de poder e influência, funciona como um substituto para a falta de influência de Portugal e da Europa no mundo.
Barack Obama é o candidato preferido dos portugueses. A popularidade de Obama em Portugal é um reflexo das diferenças políticas entre Portugal e os Estados Unidos. As preferências dos portugueses são condicionadas pelo facto de estarem, em termos políticos, à esquerda dos americanos e pela forma como a informação sobre os Estados Unidos cá chega. A informação é filtrada pelos jornalistas americanos, que estão à esquerda da sociedade americana, e pelos jornalistas portugueses, que estão à esquerda dos seus colegas americanos. O resultado destes filtros é uma visão alienada e paroquial da política americana.
A barreira informativa entre os Estados Unidos e Portugal tende a criar uma série de equívocos. Alguns intelectuais portugueses, sobretudo os que estão mais à esquerda, projectam os seus valores e os seus interesses no eleitorado americano e esperam que este se comporte de acordo com esses valores e interesses. Quando o eleitorado americano não se comporta como o esperado, os intelectuais de esquerda concluem, como concluíram quando George Bush foi eleito e reeleito, que os americanos são estúpidos. Estes intelectuais cometem um erro básico: tentam analisar as eleições americanas sem se darem ao trabalho de compreender o contexto político e cultural em que elas ocorrem. Em vez de produzirem análises objectivas e imparciais, limitam-se a expressar os seus desejos.
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