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por
Mário Soares
1.O mundo está cada vez mais perigoso, como dizia o meu saudoso amigo Victor Cunha Rego. Mas de então para cá - e já lá vão uns anos - as crises, violências, incertezas quanto ao rumo e irresponsabilidade dos dirigentes ocidentais têm vindo a agravar-se, aceleradamente.
Não vou repetir o que tenho, regularmente, escrito, como matéria de análise e reflexão sobre os acontecimentos no Diário de Notícias e em conferências que faço, em Portugal e no estrangeiro. A crise é múltipla, extremamente complexa e está a tornar-se planetária. O FMI, ultraprudente, não deixou de referir que nos dois próximos anos não devemos esperar nada de bom. Tanto no plano financeiro como económico: desemprego, inflação, desequilíbrio das moedas, principalmente do dólar em relação ao euro, falta de confiança dos investidores, deficit orçamental dos Estados Unidos, a atingir níveis nunca vistos, etc. Ora, tudo isso, para ter um princípio de resolução, terá previamente de ser mudado o sistema neoliberal, responsável pela desregulação da globalização, pela falência de bancos e empresas e, ao mesmo tempo, pelo impressionante aumento da pobreza e das desigualdades sociais. Em todos os continentes. Mas não só: também por causa do que o prof. Sami Naïr chama "o alcance geopolítico da crise" (El País, 22 do corrente).
Com efeito, a ilusão hegemónica do unilateralismo americano está a desfazer-se inexoravelmente. Potência militar, ainda sem paralelo, a América do Norte, no plano financeiro, económico e geostratégico, está perante o regresso do multilateralismo em força, com a autonomia crescente dos chamados países emergentes e de diversas regiões, ricas em energia, minerais ou produtos alimentares, que estão a criar um novo dinamismo económico. Relativamente à Ibero-América, por exemplo, está a viver uma revolução democrática, pacífica e anti-imperialista inédita. Ora, a menos que haja uma mudança rápida das políticas e comportamentos, a América do Norte entrará em irremediável decadência. E, ao mesmo tempo, assiste-se na União Europeia, a uma inexplicável paralisia e falta de liderança...
2.O Próximo Oriente, onde começou o descalabro político americano, com pretextos falsos, que levou à invasão do Iraque, para combater (no sítio errado) o terrorismo, hoje está em plena crise. As lutas entre curdos, xiitas e sunitas têm-se agravado irremediavelmente. E o Iraque, como antigo Estado laico (e também "tampão", em relação ao Irão), não se vê como possa recuperar, nos próximos anos...
Antes, com a aquiescência da ONU - e o envolvimento da NATO -, sempre com o pretexto de combater o terrorismo, tinha-se cometido outro erro gravíssimo: a invasão do Afeganistão. Seis anos depois, tudo se complicou e nada se resolveu. A NATO, metida num beco sem saída, ineficaz na luta contra o terrorismo, está a tornar-se um imbróglio sem sentido. Os franceses, vítimas, há poucos dias, de uma dezena de mortos fora os feridos, que metam, finalmente, a mão na consciência e se perguntem: para quê? Mas não só os franceses...
3.O Paquistão - depois da demissão, há poucos dias, do Presidente Musharraf, "amigo", que sempre me pareceu muito ambíguo, dos americanos -, e, com o consequente afastamento das Forças Armadas das decisões políticas, mergulhou num estado de convulsão e incerteza. E em certas regiões fronteiriças como o Afeganistão, os talibãs mandam e parece terem criado um verdadeiro santuário para a Al-Qaeda. A desconfiança reinante entre o Afeganistão, o Paquistão e a Índia, dos quais os últimos dois detêm bombas atómicas, está a transformar a região num autêntico barril de pólvora.
4.O conflito israelo-palestiniano não cessa de se agravar. Ao contrário do que seria sensato, tanto para a América como para a Europa. Israel, auxiliado a fundo pelos Estados Unidos, está a tornar-se numa vítima dos seus amigos e aliados. Não só o conflito com a Palestina se tem agravado, sem remédio, como a agressividade israelita tem reforçado o campo extremista palestiniano (Hamas) e destruiu, com a infeliz invasão do Líbano, um país plural que poderia ser um elemento moderador na região. Não esqueçamos que Israel tem a bomba atómica e, espicaçado pelos Estados Unidos, não é de excluir - espero que não! - que se lance noutra aventura, desta vez contra o Irão... Seria um verdadeiro salto para o abismo...
5.Na Geórgia, na zona sensível do Cáucaso e do Cáspio, abriu-se outra frente perigosa. Encorajado pelos americanos - e uma vez mais pela NATO -, o insensato Presidente da Geórgia resolveu intervir militarmente na Ossétia, provocando mortos e estragos. Foi uma provocação feita à Rússia: mais uma, após o Kosovo, os mísseis instalados nos países do Leste (hoje membros da NATO) e dirigidos contra a Rússia. Esta reagiu com prontidão, brutalidade e eficácia. Putin preveniu que "a Rússia é uma grande potência, económica, política e militar, e como tal deve ser respeitada". Não era preciso tê-lo dito. Gorbachev, num artigo no New York Times, disse, com razão e bom senso, que "a Geórgia era a crise que a Rússia não queria". E advertiu que "se não deve isolar a Rússia". Mas a tensão continua.
6.Entretanto, Barack Obama escolheu como seu vice o senador democrata Joseph Biden. Foi uma excelente escolha. O nervosismo que as eleições presidenciais estão a provocar, na Administração Bush e entre os neocons republicanos, talvez explique as provocações e os erros graves que têm cometido, arrastando com eles a União Europeia. Espero que os dirigentes europeus percebam - enfim! - que têm de mudar de caminho... Para bem deles e de todos nós. |
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