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LICÍNIO LIMA
LIONEL BALTEIRO (foto)
Loures. Tiros após os desacatos registados no domingo de madrugada danificaram duas viaturas
Os tiros voltaram ao bairro da Quinta do Mocho, no domingo à noite, poucas horas depois de um jovem com 20 anos ter sido morto dentro de sua própria casa, em resultado de uma alegada rixa entre gangues que provocou também cinco feridos. O anunciado reforço policial não evitou os novos disparos sobre duas viaturas que parecem ter imposto o silêncio. Entre os residentes ninguém sabe de nada, ninguém viu nada. Os pais da vítima, no entanto, garantem que conhecem os alegados assassinos. Marco Paulo, a vitima mortal, deverá ser enterrado no sábado.
Ainda no rescaldo da violência, Alda, de 53 anos, assa tranquilamente as maçaroca de milho na berma da rotunda onde desemboca a rua Agostinho Neto, a artéria em que se situa a casa dos pais de Marco Paulo, conhecido por José Mário. Foi nesta residência que, na madrugada de domingo, entrou um grupo de 10 a 15 indivíduos, munidos de armas, que, depois de trancarem nos quartos a mãe, o avô e os irmãos, espancaram o jovem que viria a morrer a caminho do hospital. Antes, tinham disparado à queima roupa sobre um grupo que se encontrava naquela rua provocando cinco feridos, dois dos quais graves (ainda internados). Iam munidos de pistolas e caçadeiras. Tudo aconteceu depois de uma noitada numa discoteca improvisada do bairro. Fernando Ferreira Marcos, presidente da Junta de Sacavém, já explicou que se trata de um espaço ilegal e que, por isso, deveria ser encerrado.
Alda volta as maçarocas a assar no fogareiro. "Chego a vender um saco por dia". Mas confessa que agora tem medo. A dois passos, o senhor Coelho, um dos poucos brancos residentes no bairro desabafava: " Agora, tenho vergonha de viver aqui. Muitos pretos também". Um terço dos 3500 moradores são angolanos, coabitando com originários de São Tomé, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e da Europa do Leste. Cerca de 50% tem menos de 29 anos.
Crimes sucedem-se
Com 72 anos, Coelho recordou-nos os quatro homicídios que já presenciou. Dois indivíduos, residentes na mesmo apartamento, lutaram porque a casa de banho estava suja. Um ficou ferido e o outro morreu. Um casal desentendeu-se. Ele agrediu a mulher e, pensando-a morta, matou-se. As duas outras situações aconteceram no "bataclã", o café que o septuagenário assim denomina, onde dois indivíduos morreram esfaqueados.
Ali ao lado, Joaquim Mendes, de 64 anos, vende tomates e malaguetas criadas nos terrenos da Brisa. "Não tenho medo, mas tenho receio" diz. Já vive ali desde 1999, data das primeiras mudanças para o novo bairro -agora vivem 530 famílias em 680 fogos de 91 edifícios. "Muito mais receio do que antes".
Os filhos foram viver para outras bandas mais seguras. Os de Alda também. Coelho já foi roubado cinco vezes. Ao filho e neta aconteceu o mesmo. "Não me meto com ninguém", assegurou, apontado o Peugeot eo Nissam baleados no domingo à noite, já depois da morte de Marco Paulo. O reforço policial não inibiu os autores dos disparos. Ontem de manhã, já após aqueles tiros, a polícia montou uma operação de vigilância à entrada do bairro, passando em revista as viaturas suspeitas. Segundo alguns moradores, os novos tiros terão sido um apelo ao silêncio.
Quando se pergunta aos moradores pelos autores dos disparos: ninguém sabe, ninguém viu nada. Armas ilegais? "Quando vieram cá buscá-las tragam camiões TIR", ironizam, sem esboçar um sorriso.
Na casa de Marco Paulo, a mãe, Benvinda, sentada na cama, garantiu ao DN que o seu filho não tinha dívidas. "Morreu por nenhuma razão". O seu pai, Mário, acabado de chegar de França, onde trabalha, avisa: "Eu também posso matar".|
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