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Professores já ameaçam Sócrates

por

JOÃO PEDRO HENRIQUES

LEONARDO NEGRÃO  

Dizer 100 mil ou 80 mil manifestantes é atirar números. Dizer que os manifestantes conseguiram encher, em simultâneo, grande parte da Avenida da Liberdade, seguida do Rossio, depois a rua do Ouro e por último, como se não bastasse, o Terreiro do Paço, talvez dê a ideia da dimensão da "Marcha da indignação dos professores". Os primeiros a chegar ao Terreiro do Paço fizeram-no por volta das 16.00; os últimos (os dos sindicatos do Norte) quase duas horas depois.

"Ganhámos com maioria qualificada de dois terços", disse, exultante, perante um Terreiro do Paço a abarrotar de gente, como já não via há décadas, o sindicalista Mário Nogueira, líder da Fenprof, principal dinamizador do protesto.

O que ficou foi uma ideia de sucesso total no protesto. E ainda uma outra, consequente: ontem consumou-se no centro de Lisboa a ruptura total entre os professores e o Governo. Mário Nogueira, interpelado a certa altura pelo DN, não hesitou: "Com esta equipa governativa, não é possível que haja mais diálogo."

À multidão e aos vários jornalistas que o foram entrevistando ao longo da tarde, repetiu: "Esta equipa não tem mais condições para se manter em funções. Tudo o que faz com a sua inflexibilidade é regar a fogueira com gasolina."

Carvalho da Silva, líder da CGTP, sinalizou a dimensão da crise: "Se o Governo não souber interpretar os sinais, então é a democracia que está causa." "Ou se arranja uma grua ou a ministra se evapora". À pergunta "qual a solução?", a multidão respondeu-lhe: "Rua, rua, rua!" Mário Nogueira, engenhoso, já depois de o comício terminar, explicava aos jornalistas: "Na lista das nossas palavras de ordem nem constava essa ['Tá na hora/Tá na hora/Da ministra ir embora"]. Mas foi a que mais se ouviu." Numa faixa, a ameaça: "Em 2009 José Sócrates será avaliado..."

Ontem foi um dia diferente. Na maior parte das greves, todos os efeitos da propaganda e contra-propaganda se anulam. Raramente alguém consegue cantar convincentemente vitória. Ontem, a ministra da Educação ficou com a certeza que de facto a maior parte da classe dos professores está contra ela. Mário Nogueira conclui: "Este já não é um problema do ministério da Educação; é um problema do primeiro-ministro."

E tudo correu sem incidentes. O grosso do efectivo policial concentrou-se no controlo do trânsito. À cabeça da marcha, uns bons 50 metros à frente, vigiada de perto por alguns agentes da PSP, uma senhora idosa, visivelmente transtornada, agitava uma bandeira do PS e fazia manguitos aos manifestantes. "É atirar-lhe fogo!", gritava um deles. Mas ninguém perdeu a cabeça.

Vieram de todo o lado, inclusivamente das ilhas. Chegaram a Lisboa por todas as maneiras, nomeadamente utilizando os mais de 627 autocarros que os sindicatos alugaram. Quarenta mil manifestantes chegaram a Lisboa nestes autocarros. Ou de todas as outras formas. Vieram sindicatos da CGTP, outros da UGT e outros independentes.

Às 14.30, hora marcada, a frente da marcha arrancou do Marquês do Pombal. Vivia-se, como Pacheco Pereira ontem escreveu no seu blogue, um ambiente "fisico", alegre, dançante às vezes, quando por exemplo as colunas debitavam o "Venham mais cinco", de Zeca Afonso, ou os delírios cigano-balcânicos do sérvio Emir Kusturica.

Os políticos, esses, foram discretos. Durante toda a semana, os sindicatos promotores da marcha multiplicaram avisos contra tentativas de partidarização. "O que queremos são dirigentes partidários que sejam professores", reafirmava ontem Mário Nogueira.

Viram-se, do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, Miguel Portas e Ana Drago. Do PSD, o deputado Arménio Santos, líder dos Trabalhadores Sociais-Democratas; do PS, ninguém. Do MRPP, o seu líder, Garcia Pereira. Ainda na Avenida da Liberdade, junto ao centro de trabalho do PCP do Hotel Vitória, mostrou-se a delegação do PCP, comandada pelo líder parlamentar, Bernardino Soares.

No final, foi aprovada a habitual resolução, com o habitual caderno reivindicativo: suspensão das avaliações dos professores; suspensão da aplicação às escolas do novo regime de gestão; pagamento de horas extraordinárias na aulas de substituição.

Eram 18.50 quando a "marcha da indignação" se dissolveu, cantando o hino. Antes, tinha-se feito um minuto de silêncio: "Pelos colegas que morreram em trabalho, pois que também eles foram vítimas deste Governo". |


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