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ANA MARQUES GASTÃO
Uma fábula, a do lavagante - a di- tadura, certos homens -, diálogos despojados nesta Lisboa de "céu azul fino". Um jornalista em destroços, a sombra de uma mulher "fria e so- berana", a crise estudantil de 62. Eis um esboço d' O Lavagante/encontro desabitado, inédito de José Cardo- so Pires, que lança a nova editora de Nelson de Matos. O livro está a partir de amanhã nas livrarias.
As herdeiras dizem que só decidiram publicá-lo depois do "incumprimento" das promessas por parte da Câmara Municipal de Lisboa (sob a liderança de João Soares) quanto ao tratamento do espólio e à criação de uma Biblioteca Cardoso Pires - que ficaria sediada na Biblioteca de Alvalade (ler caixa). Há, aliás, confirma, Ana Cardoso Pires, correspondência nesse sentido. E não havendo respostas, puseram cá fora esta "versão mais acabada" de um texto no qual o autor de O Hóspede de Job muito investiu, mas que deixou para trás. E porquê? "Penso que o Zé terá considerado que a História ultrapassou a novela e talvez a tenha transfigurado noutra coisa, talvez naquilo que veio a ser depois O Delfim. A meu ver, faz hoje muito mais sentido lê-la do que nos anos 80 e 90."
O Lavagante/encontro desabitado foi publicado, pela primeira vez, em 1963, numa versão de três páginas, no nº 11 d'O Tempo e o Modo e intitulava-se, então, O Lavagante e Outros Exemplares. Mencionava-se na revista que se tratava de um capítulo do próximo romance.
Surgida por ocasião da passagem dos dez anos sobre a morte do escritor - 26 de Outubro -, a novela (a mais completa das três versões dactilografadas), é anterior a O Delfim (1968). Existem outras, manuscritas como O Lavagante e a Mulher do Próximo. Conta Ana Cardoso Pires, uma das filhas, que, nas voltas do espólio, deu com a breve narrativa aprisionada num atado. Não era mexida pelo pai há muito, seguramente desde o 25 de Abril. Papel amarelecido, esmaecido, todo por igual.
Obra póstuma, esta, que Cardoso Pires não deu por acabada, a ser lida não como "o texto definitivo, mas o último texto", e a contar histórias da opressão, do medo e da culpa: "Viciámo-nos. Agora temos a Censura a escrever por nós. E amanhã? Quem sabe escrever amanhã, quando a Censura acabar?"
O fio condutor da narrativa é a fábula do lavagante: "animal de tenebrosa memória, paciente e obstinado, e terrível nos seus desígnios." Ana Cardoso Pires lembra-se de ouvir o pai contar como o crustáceo servia o safio nas tocas, levando-lhe comida, vendo-o engordar, incapaz de sair do buraco. Depois encontrava o momento exacto para devorar o "grande prisioneiro" que havia alimentado durante tanto tempo.
Lavagante servil, cínico, observado com a mesma obsessão que o escritor nutria pela fotografia, não deixando fugir a presa, na procura da palavra enxuta: "O Zé gostava das coisas da natureza, mas do ponto de vista da fábula. Quando eu era pequena, lembro-me de ele pôr dentro de uma redoma uma aranha e uma mosca e ficava a ver quanto tempo aquilo iria durar. Inventava histórias entre elas enquanto observava."
Para Ana Cardoso Pires, O Lavagante tem uma figura feminina muito conseguida, Cecília, mais até do que a Guida de O Anjo Ancorado: "Cecília é a cabra que se liga ao pide com o pretexto de salvar o companheiro" e, não sendo um texto acabado, reconhece-se nele o estilo do autor de Alexandra Alpha que, conjugando o narrado e o humano, soube fazer das crianças personagens de corpo inteiro - ele que até "não gostava muito de miúdos" -, ou das mulheres rostos transfigurados.
Resta, ainda, inédito um conto infantil escrito numa carta às filhas: Os Esquilos Azuis. Tudo o mais foi começado e largado. O espólio tem sobretudo versões antigas dos livros. Como se recorda a filha do escritor? "Lembro-me do meu pai, não do Cardoso Pires. E pergunto? Que terei eu não percebido nele?"|
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