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JOSÉ MÁRIO SILVA
Encontro terminou ontem com uma sala apinhada às 10.30 da manhã
"Estou assombrado", confessou o escritor cubano Leonardo Padura, um dos veteranos das Correntes d'Escritas, ao ver as cerca de 350 pessoas que encheram ontem, pelas 10.30, o Auditório Municipal da Póvoa de Varzim, ocupando todos os lugares sentados (e ainda as escadas), para assistir à última sessão deste encontro anual de escritores de expressão ibérica. "Não acredito que em Paris, em Madrid ou em Lisboa se juntasse tanta gente para ouvir cinco escritores a debater um tema tão metafísico ["Cada Homem é uma Língua"] num sábado de manhã."
Em boa verdade, não foi só ontem que o público aderiu em força às mesas-redondas, lançamentos, filmes e sessões poéticas incluídos na programação deste ano das Correntes. Segundo uma estimativa de Manuela Ribeiro, da organização, o número de espectadores foi maior do que em 2007: "No total, assistiram às diversas actividades umas quatro mil pessoas, a que devemos acrescentar os cerca de dois mil alunos que participaram nas visitas de alguns dos escritores convidados às escolas do concelho." Este ano, pela primeira vez, estas visitas abarcaram tanto as escolas secundárias como as básicas.
Mas o fulcro das Correntes, pretexto para a reunião de 62 participantes de 11 países, continua a ser o diálogo entre escritores - como ficou claro na épica mesa-redonda final. Durante duas horas e meia, num estado de suspensão maravilhada, o público escutou, além de Padura, o moçambicano Mia Couto, o brasileiro Tabajara Ruas, o angolano Pepetela e o português Onésimo Teotónio de Almeida. Já a moderadora, Maria João Seixas, falou pelos cotovelos, gaguejou sem complexos, comoveu-se, chorou e riu às gargalhadas, reflectindo o espectro imenso de emoções que iam varrendo o auditório.
Os dois extremos foram representados por Mia Couto e Onésimo. Num registo fortemente metafórico, o escritor africano tentou desfazer equívocos em torno da reinvenção da língua, que está no cerne da sua obra, defendendo que ela não corresponde a um processo linguístico ou literário, mas antes à necessidade de não perder a dimensão poética da palavra. "Quanto mais manipularmos a língua, menos manipuláveis seremos", afirmou, antes de defender que cada homem "deve ser uma nação bilingue", tendo uma língua para os aspectos funcionais da vida e outra para "lidar com o incapturável".
Se o discurso de Mia convenceu pela elegância, o de Onésimo desarmou pelo humor das suas histórias sobre sotaques e outros problemas de comunicação, lançando ondas de riso no auditório. Já Tabajara Ruas leu uma extraordinária evocação do poeta Mário Quintana, enquanto Padura resumiu a genealogia da "língua literária" em Cuba (do tempo dos escravos à actualidade) e Pepetela, mestre da ironia, partilhou um divertido texto ensaístico que desconstrói de alto a baixo o tema proposto.
As Correntes fecharam com a entrega do Prémio Casino da Póvoa a Ruy Duarte de Carvalho, pelo livro Desmedida.
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