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A HIERARQUIA DOS RISCOS

por

Adriano Moreira

professor universitário  

O secretário-geral das Nações Unidas tornou pública a sua avaliação positiva dos resultados a que chegou a Conferência da ONU sobre as Alterações Climáticas, realizada em Bali, com a participação de 187 países, assinalando um ambiente de esperança em fim de ano.

Talvez esta atitude deva ser relativizada comparando o frágil consenso de partida, e as exigências que traduzem a situação crítica do planeta, com as conclusões finais do encontro.

A mais significativa dessas conclusões foi a de ter sido estabelecida a definição do objecto das negociações que deverão levar a um resultado conclusivo até 2009. Espera-se que o resultado seja um texto substitutivo do Protocolo de Quioto, para entrar em vigor em 2013.

De facto tratou-se de pedir agora à opinião pública que confie na definição processual, mas sem nenhum consistente sinal de que nessa data as soberanias terão atenuado os vetos efectivos a uma política eficaz.

É difícil ignorar a urgência de aceitação das políticas inadiáveis, tudo para enfrentar uma ameaça com a qual se defrontam todos os países da Terra, e a própria Terra. Isto sem omitir que o ambiente em que a Conferência de Bali se desenrolou estava muito condicionado por anseios de indiscutível autoridade científica, técnica, e mesmo política.

O Human Development Report 2007/2008 da ONU, de 27 de Novembro, sublinha que os milhões de pessoas que vieram ao mundo em situação de miséria estavam a "pagar um elevado preço pelas acções dos outros", e proclamava que, sem acções imediatas, as alterações climáticas podem "inverter os progressos realizados ao nível da redução de pobreza, alimentação, saúde, e educação" que lhes respeitam.

Por outro lado, o relatório de 2007 sobre renewables global status insiste na urgência de "metas vinculativas estipuladas num acordo internacional, tendo em vista a adopção de políticas susceptíveis de acelerar rapidamente a utilização de energias renováveis em grande escala, a fim de substituir os combustíveis fósseis".

Entretanto, a ONU e o World Agroforestry Centre levaram a cabo um programa de plantação de mil milhões de árvores, um resultado anunciado antes da Conferência de Bali.

Muito para além dos votos de boas intenções e das acções simbólicas, o Inter Academy Council publicou um trabalho - Lighting the Way -Toward a Sustainable Energy Future (Outubro - 2007) que, apoiado nas autoridades convergentes de 15 academias, ou organizações equivalentes, fornece um sólido conjunto de conclusões, directivas, e previsões, que, lidas e meditadas, ajudariam os soberanismos a evitar colocar o acento tónico no processo, dando atenção ao possível equilíbrio das renúncias necessárias e à consciência dos riscos para a paz dificilmente visível nas declarações e práticas.

Porque naquilo que respeita ao problema de relação da paz com os desafios ambientais, as chamadas de atenção na temática de Quioto são discretas.

Justamente uma das advertências do Inter Academy Council, que ganha relevo no autorizado documento publicado, é esta: "A competição pelo fornecimento de petróleo e por gás natural ameaça tornar-se numa causa crescente de tensão geopolítica e vulnerabilidade económica para muitas nações nas próximas décadas."

De facto, trata-se da amenizada lembrança de uma realidade vivida, designadamente na subida aos extremos no Iraque, e nas lutas pela hegemonia junto dos países detentores dos recursos não renováveis.

A advertência teve o apoio de instituições científicas de países situados em todos os níveis do desenvolvimento, teimosamente convictos de que os actos de inteligência não poderão ser ignorados pelos decisores que exercem o poder.

Trata-se de eliminar a ilusão de que o uso da força militar não terá relação com a carência de recursos detidos por soberanias menores. |


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