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por
FERREIRA FERNANDES
Enviado aos EUA
Em 2003, Iris Martinez foi a primeira hispânica eleita como senadora no estado do Ilinóis. Na semana passada, em Chicago, entre importantes eleitos "latinos" que se declaravam apoiantes de Barack Obama, ela apontou uma qualidade do candidato que escapou aos colegas. Estes, com as variações que o tema permite, derretiam-se sobre a "inspiração" que Obama lhes dá. Mas Martinez, de 51 anos, encantou-se por razão mais terra a terra: "Nunca vi ninguém do meu partido tão capaz como Obama em ir ter com os republicanos, discutir, discutir e arrancar um acordo."
Barack Obama, de 46 anos, tornou--se a vedeta destas primárias, ao colar- -se nas sondagens nacionais a Hillary Clinton, que ainda há dois meses era dada como certa na nomeação do Partido Democrata para as eleições presidenciais americanas.
Do lado republicano, a surpresa é John McCain, de 71 anos, um veterano das presidenciais. Nas primárias de 2000, ele foi o adversário de George W. Bush, candidato oficial do partido. Desta vez, também remando contra a vontade do aparelho do partido, que apoia Mitt Romney, McCain era dado como um perdedor.
No entanto, as sondagens do passado fim-de-semana dizem que ele pode ter a nomeação já hoje. Isto, quando ele é um republicano sui generis, longe das posições duras do partido sobre a imigração, os casamentos gay e a política financeira apoiada na diminuição dos impostos. Enfim, McCain é a ruptura com a era Bush, que foi alicerçada na rigidez ideológica e no militantismo das igrejas cristãs evangélicas.
Assim, esta superterça-feira, a que se emprestam todos os superlativos (tsunami, mega, giga), importante na quantidade - 24 estados vão votar -, pode ser ainda mais importante pela mudança que anuncia na política americana. Não sem razão, estas são as primeira presidenciais desde há 80 anos em que nem os cessantes Presidente (Bush) e vice-presidente (Dick Cheney) se recandidatam. Como para marcar a mudança de um ciclo. E o ciclo fundamental que se ultrapassa vem desde o fim da Guerra do Vietname e dos anos Reagan, quando a ideologia esteve nos postos de comando.
Nem sempre os republicanos e os democratas foram inimigos separados por um muro em Washington. No domingo, o New York Times lembrou que o presidente Lyndon Johnson (1963-68) era conhecido por não ter uma ideia na cabeça, ocupada que estava esta a "procurar consensos" - o que não o impediu, bem pelo contrário, de ter sido o autor das leis que mais mudaram a América nas últimas décadas: a dos Direitos Civis, em 1964, e a dos Direitos de Voto, em 1965.
Pela vaga de fundo que pareceu animar estas primárias - o que pode, evidentemente, ser desmentido pelos resultados que se conhecerão na próxima madrugada -, os heróis são Barack Obama e John McCain. Ambos são abrangentes, sofrem da doença de Lyndon Johnson, gostam de procurar consensos.
Nesta campanha, Obama permitiu--se citar Reagan como capaz de ter gerado um movimento nacional (citação que lhe valeu da parte dos Clintons uma advertência por elogiar o inimigo). E John McCain é de tal modo um heterodoxo que, em 2004, o democrata John Kerry chegou a dizer que ele podia bem ser o candidato a vice-presidente no ticket do Partido Democrata (o que valeu, agora, a McCain um sinal de desprezo de Mitt Romney: "A mim os democratas não fariam tal convite.")
Mas mais do que acordos entre aparelhos, Obama e McCain ilustram o que parece ser a vontade dos americanos: que a nação encontre uma unidade. A capacidade de ambos em fazer ponte, para lá dos respectivos partidos, é o que terá originado a vaga de fundo nas sondagens. Maria Shriver (filha de Eunice Kennedy, irmã de John e Bob) explicou, no domingo, num comício em Los Angeles, ao lado de Michelle Obama e Oprah Winfrey, a sua escolha de Obama: "Ele é por uma América da unidade." Maria Shriver é uma especialista da unidade entre diferentes, é uma Kennedy que dorme com o inimigo: mulher de Arnold Schwarzenegger, o governador republicano da Califórnia (que, por sua vez, é apoiante de McCain...)
Outros endorsements (apoios) que Barack Obama recebeu indicam que os políticos no terreno estão também preocupados com essa necessidade de fazer ponte. Os governadores democratas do Arizona, Virgínia e Kansas e os senadores democratas do Missuri e do Nebrasca têm um ponto comum, além deste apoio: são de estados onde Bush ganhou as duas últimas presidenciais. Estados onde Hillary Clinton representa a polarização democrata em relação aos republicanos - ela afasta, não junta. Ora, aqueles eleitos gostariam de ser eleitos outra vez e dar-lhes-ia jeito terem na Casa Branca quem não lhes assustasse os futuros eleitores.
Na sede da campanha de Obama em Chicago, onde Iris Martinez elogiou o espírito aglutinador do candidato, estava Nicholas Gleen, de 24 anos, estudante de Marketing numa das universidades da cidade, a de Colúmbia. De pai negro, da cidade de Detroit, e mãe jamaicana, mas de origem irlandesa, a sua pele escura e as suas origens parecem dizer o essencial da sua identificação com Barack Obama. Mas o que ele faz há semanas, como voluntário na campanha, talvez diga mais.
Telefona, telefona (cerca de cem chamadas por dia), obrigado a duas directrizes: ser educado e nunca dizer nada negativo para com as outras campanhas. O retrato de Obama nesta campanha. |
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