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por
PEDRO MARQUES
Quem a conhece diz que é tolerante e sabe escutar
Podem estar descansadas as gentes de Anadia ou de outras regiões do País que contestam o fecho das urgências. A nova ministra da Saúde é pessoa conhecida pelo seu carácter dialogante e conciliador. Pelo menos é o que garantem os amigos e antigos colegas de Ana Jorge.
Nascida na Lourinhã há 58 anos, socialista sem cartão, diz quem conhece Ana Jorge que as suas principais características são a discrição, o rigor e o sentido de responsabilidade. E que não é política profissional. Há-de sempre preferir andar no terreno ao trabalho de secretária. João Correia, seu advogado e amigo de muito anos, vê nela um misto de inteligência aliada a uma enorme capacidade de ouvir e aceitar a opinião alheia. O que nem por isso faz da ministra uma pessoa de convicções fracas. "Ela pensa pela própria cabeça, e por isso mesmo é respeitada por todas as pessoas que com ela lidam. Por isso e por ser sabedora das questões em que trabalha", acrescenta.
A opinião é partilhada por Constantino Saclarides, director da Escola Nacional de Saúde Pública, onde trabalhou com Ana Jorge. O professor de Medicina conta, à laia de exemplo, que em todos os anos de colaboração conjunta nunca ouviu a colega dar um grito ou sair do registo de voz pausado, o que revela o seu feitio pouco dado a grandes alaridos. "Isso leva a que estabeleça relações sem grandes alardes. Não é pessoa exuberante, que granjeie logo muitos amigos pelo seu feitio folclórico, mas mantém relações sólidas, agradáveis. Não há ninguém que diga mal dela", assegura Constantino Saclarides, que se apressa logo a corrigir uma possível imagem de pessoa fraca nas suas relações. "Mas não se pense que é mole, porque é na verdade muito determinada, consegue manter o pulso quando a situação o exige. Não queiram fazer dela uma coitadinha ou passar-lhe por cima, porque ela vai reagir", avisa.
Terá sido esta tão elogiada firmeza de carácter que levou Ana Jorge a dedicar toda a sua vida profissional enquanto pediatra ao Serviço Nacional de Saúde, que sempre associou à militância activa por causas sociais. Maria de Belém Roseira, deputada do PS e antiga ministra da Saúde, é uma profunda admiradora das qualidades humanas de Ana Jorge, o que a levou a nomeá-la para a presidência da Administração Regional de Saúde de Lisboa, onde esteve entre 1997 e 2000. Sem nunca se arrepender, diga-se de passagem. "Nós trabalhámos juntas no ministério numa altura muito conturbada, onde estavam a acontecer grandes transformações e o espírito de recepção por parte da população ainda não era muito grande. Enquanto alguns responsáveis podiam enviar para cima as responsabilidades, para se protegerem, a Ana Jorge nunca o fez e encarou sempre os problemas e as questões inerentes às suas competências de forma corajosa e frontal", lembra a deputada socialista.
Maria José Fonseca, do Serviço de Neuropediatria do Hospital Garcia de Orta, Almada, recorda "todas as sessões de esclarecimento sobre a epilepsia e outras deficiências, dadas nos mais variados pontos do País, desde Portalegre a Santiago de Cacém, onde éramos verdadeiros médicos ambulantes, à procura de sermos médicos mais completos". Por estas razões, Manuel Alegre ficou "muito satisfeito" quando Ana Jorge se juntou à sua candidatura para as presidenciais de 2005, onde fez inclusive parte da Comissão de Honra.
Mas quais são afinal os interesses de Ana Jorge além do trabalho? "O grande hobby dela é fazer trabalho social", explica Maria de Belém. "É uma mulher moderna, trabalhava dia inteiro e depois do trabalho ainda tinha tempo para fazer parte de instituições de carácter social, como o Instituto de Apoio à Criança, até às nove ou dez da noite. Com três filhos em casa para tratar, resta pouco tempo livre para os chamados hobbies". Constantino Saclarides prefere destacar um lado menos notado na nova ministra: o seu amor pela arte. "É uma mulher de cultura, de que é prova a implantação do projecto música nos hospitais, onde demonstra grande preocupação com a estética, com a beleza, com a evasão para outros mundos. Agora, não é pessoa de exibir dotes só para se vangloriar." Traços da ministra que foge do protagonismo.
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