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JOSÉ ANTÓNIO CARDOSO, Vila Real ROBERTO DORES, Setúbal
Dois novos casos de morte ligados a uma deficiente assistência médica, um em Vila Real e outro em Palmela, voltaram a pôr em causa o novo mapa dos serviços de urgência, traçado em 2007. Noprimeiro caso não foi questionada a prestação de cuidados por parte dos técnicos de emergência, mas a falta de humanidade no tratamento hospitalar. Já Sandra Ramalho morreu em sua casa, uma hora e meia após o primeiro telefonema ao 112.
Sandra Ramalho, de 31 anos, morreu na madrugada de ontem, na sua casa em Cajados (Palmela). Segundo o marido, Heitor Ramalho, o primeiro telefonema para o INEM foi feito às 6.39 horas. Após um segundo contacto, o único socorro veio dos Bombeiros, às 8.20 horas. Era tarde demais.
A família de Sandra, que deixa duas filhas gémeas, está indignada, alertando que do Hospital de São Bernardo (Setúbal) a Cajados, distam apenas 11 quilómetros, pelo que a assistência "podia ter sido quase na hora", diz o viúvo, que pede que seja revelada a gravação do segundo telefonema. "Disseram que aquilo não era nenhuma fábrica de carpinteiros e mandaram-me arejar a cabeça", diz.
O primeiro telefonema foi realizado pelo pai da vítima, após Sandra ter caído no corredor quando regressava da casa de banho. "Estava desmaiada e a sangrar do nariz", relata o marido. António Viegas recebeu instruções para levantar as pernas à filha. A família continuou à espera do INEM. Eram cerca de 08.05 horas quando Sandra pediu para ir à casa de banho, mas voltou a sentir-se mal. "Tentei ajudá-la, mas ela apenas se virou para mim e disse que me amava muito. A seguir deitou qualquer coisa da boca".
Foi nesse momento que a família contactou os bombeiros, que saíram às 08.10 horas. Quando lá chegaram, já Sandra estava em paragem respiratória. O INEM remeteu explicações sobre este caso para mais tarde.
Este e outros casos levaram a Associação Nacional dos Técnicos de Emergência a apelar ao Governo para que tomasse medidas para a reorganização do socorro, como profissionalização das ambulâncias e as centrais de emergência.
"Era como se tivesse morto"
Manuel Pinho, de 79 anos, morreu na sexta-feira no Hospital de Vila Real, horas depois de os médicos lhe terem dado alta e de ter voltado à unidade por se sentir pior. A esposa, Julieta Pinto, não reclamou do apoio médico, mas disse que o marido foi tratado "como já estivesse morto".
As queixas, de dores intensas no corpo e gripe, começaram logo ao fim da tarde de quinta--feira. Manuel Pinho foi transportado pelos Bombeiros Voluntários do Peso da Régua ao Hospital de Vila Real. A médica acabou por dar alta ao doente por volta das duas e informou a esposa que teria de arranjar transporte. Segundo contou ao DN, Julieta ripostou que, àquela hora, não tinha qualquer possibilidade de assegurar transporte para a Régua. "Pedi então pelas alminhas para me deixarem lá ficar até de manhã. Depois telefonava a um vizinho que tem um táxi para nos vir buscar. O meu marido não parava de se queixar com dores e com frio, pois estava deitado na maca apenas com um lençol".
Pelas 7.30 horas, telefonou ao vizinho, José Carvalho, para os ir buscar. O vizinho e taxista disse que, ao chegar ao hospital, encontrou o idoso numa maca, completamente nu e debilitado. Foi com um casaco e um xaile que o transportou para o carro. " Sou bombeiro nos Voluntários da Régua e nunca vi ninguém ser tratado assim". O idoso regressou a casa, em Godim, Peso da Régua, mas sentiu-se cada vez pior. Regressou à urgência do Hospital ao início da tarde, acabando por falecer horas depois. O Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro, no qual está inserido o Hospital de Vila Real, anunciou que avaliará a ocorrência na próxima segunda. |
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