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por
Anselmo Borges
padre e professor de Filosofia
Constantemente, em debates públicos com não crentes, sou confrontado com a sua ideia de que os crentes não têm dúvidas, porque lidam com dogmas certos e inquestionáveis. Até os posso compreender, na medida em que são os crentes que transmitem essa imagem de imobilismo intelectual. Não havia até há pouco tempo uma licenciatura em Teologia Dogmática? De facto, quem assim pensa esquece que a fé não termina na formulação dogmática, mas no mistério vivo de Deus, que transcende sempre tudo quanto dele se possa dizer. Por outro lado, a fé, pela sua própria definição, convive com a dúvida. Precisamente neste contexto, o conceituado médico e filósofo, cristão convicto, Pedro Laín Entralgo, não se cansava de repetir: "O certo é penúltimo e não pode não ser penúltimo, e o último é incerto e não pode não ser incerto." Assim, as chamadas ciências exactas podem alcançar o certo, mas são da ordem do penúltimo. A ultimidade - porque há algo e não nada?, qual o sentido último do universo e da existência humana?, porque existo eu, precisamente eu?, Deus existe?, a vida continua depois da morte? - não é objecto do saber da ciência, mas do saber da crença.
No quadro do saber científico, não se pode demonstrar nem que Deus existe nem que Deus não existe. Também o descrente não pode provar a não existência de Deus. Pense-se, por exemplo, no famoso biólogo Richard Dawkins, que escreveu um best-seller, The God Delusion, traduzido agora para português: A Desilusão deDeus. Darwinista convicto, vê na selecção natural a chave de explicação da evolução, querendo acabar com a ilusão de um Deus pessoal criador e de um "desígnio inteligente" e manifestando a convicção de tornar ateus todos os seus leitores religiosos. Entrevistado recentemente sobre o grau de certeza da não existência de Deus, numa escala de 1 a 7, a resposta foi 6 e não 7.
Neste domínio, há sempre algo que transcende a simples razão. Aqui precisamente, aparece a aposta de Pascal. Lá está o texto célebre dos Pensamentos: "Examinemos este ponto, e digamos: 'Deus existe ou não existe.' Para que lado nos inclinaremos? A razão não o pode determinar. Mas é preciso apostar. Não é coisa que dependa da vontade. Já estais embarcados. Que escolha fareis? A vossa razão não será mais lesada por escolherdes uma coisa de preferência à outra, pois é necessariamente forçoso escolher. Eis um ponto assente. Mas a vossa felicidade eterna? Ponderemos o ganho e a perda, escolhendo Deus. Ponderemos estes dois casos: se ganhardes, ganhareis tudo; se perderdes, não perdereis nada, Apostai, pois, que Deus existe, sem hesitardes." Em termos simples, quase banais. Estamos embarcados e temos de decidir, pelo menos em termos práticos, isto é, com a atitude face à existência. Se aposto por Deus e ele realmente existir, nada perco e ganho o que decisivamente me interessa: o sentido último e a vida eterna. Pelo contrário, apostando pela não existência de Deus, se ele existir, perco a vida eterna e, pensando bem, o que ganhei verdadeiramente? É um jogo entre o finito e o infinito.
A aposta pascaliana continua a ser discutida, dividindo os espíritos. De facto, é preciso compreender que Pascal não pretendia "provar" a existência de Deus, já que não é pela razão que se chega a Deus, mas pelo "coração". O seu objectivo essencial era despertar o céptico e abrir a uma conversão possível a Deus. Neste quadro, o teólogo Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, ousa, na linha de Pascal, lançar o grande desafio e aposta ao não crente: "Deveríamos subverter o axioma dos iluministas - 'como se Deus não existisse' - e dizer: mesmo quem não consegue encontrar o caminho da aceitação de Deus deveria de qualquer modo procurar viver e orientar a sua vida 'como se Deus existisse'".
Mas cá está: o decisivo é a praxis. Crentes e não crentes precisam de viver de tal modo que para todos a vida seja mais feliz ou, pelo menos, menos infeliz. Nesse existir solidário, poderá vir a experienciar-se o Mistério último como Anti-mal solidário e compassivo.|
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