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Cartas da I Guerra Mundial criam 'suspense' em blogue do séc. XXI

por

HELENA TECEDEIRO  

"Tivemos outro momento terrível esta semana. Perdemos muitos homens, mas conseguimos conquistar o lugar para onde nos mandaram. Foi terrível", pode ler-se no blogue de William Henry Bonser Lamin. Nada de estranho se se tratasse de um soldado destacado, por exemplo, para o Iraque. Mas Harry, como assina as cartas enviadas da frente e colocadas em wwar1.blogspot.com, não está no Iraque. O britânico que, se fosse vivo, teria 120 anos, foi um dos combatentes da I Guerra Mundial.

As missivas que Harry enviou à família, são colocadas em linha exactamente 90 anos depois da data em que foram escritas. O autor de blogue é o neto de Harry, Bill Lamin. Este professor de Matemática e Informática de 59 anos encontrou as cartas do avô dentro de uma gaveta em casa dos pais, quando era ainda criança. Agora decidiu divulgá-las na Internet. "São muitas as pessoas que me confessaram gostar de seguir o dia-a-dia de Harry e estar a torcer por ele", explicou o professor à Reuters.

E para manter o suspense, Bill coloca as carta no dia exacto em que foram escritas há 90 anos. Depois da exposição mediática do blogue, da BBC ao USAToday, são 20 mil os visitantes que seguem com atenção o percurso de Harry. Irá sobreviver? Como será a sua última carta? A família irá receber um telegrama com a notícia da sua morte? Uma novela que está a emocionar os internautas.

Na sua última carta, datada de 30 de Dezembro de 1917, Harry, cujo perfil nos revela ter nascido em 1887 na cidade de Awsworth Notts, agradece ao irmão Jack a caixa de bolos que lhe enviou e deseja um bom Natal e Feliz Ano Novo à irmã Kate.

O tom intimista repete-se na maioria das missivas enviadas por Harry a Kate e Jack, com referências frequentes à mulher, Ethel, e ao filho bebé, Willie.

As raras vezes em que Harry fazia referências directas à guerra, estas eram cortadas pela censura. Mesmo assim, em Junho de 1917, escrevia: "Os homens dizem que isto é pior que a batalha do Somme. O nosso capitão morreu e nem conseguimos perceber como escapámos". Numa missiva de Outubro, o número de mortos e feridos de uma das batalhas foram apagados para não afectar a moral das tropas no Reino Unido. Entre 1914 e 1918, mais de cinco milhões de britânicos combateram naquele conflito.

Harry pertenceu ao 9.º Batalhão de Yorkshire e Lancashire. Foi com base nos diários desse batalhão, que Bill muitas vezes conseguiu reconstituir o percurso do avô, nem sempre claro nas cartas.

Na última entrada do blogue, Bill informa que Harry voltou para a frente de batalha em Itália. Mas as missivas permitem acompanhar o seu percurso desde o desembarque em França, depois da travessia do Canal da Mancha, até Itália. Quanto ao destino de Harry, Bill pede paciência: "As pessoas seguem a história como se estivesse a acontecer agora".|


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