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ISABEL LUCAS
E se um livro de 900 páginas, de um autor desconhecido em Portugal esgotar em duas semanas a primeira edição? Será só marketing? Falamos de As Benevolentes, do norte-americano Jonathan Littell, vencedor do prémio Goncourt em 2006, um dos fenómenos literários dos últimos dois anos. Polémico q.b. para estar quase em todos os blogues literários, causar discussão, com tanto de apaixonável como de odioso, seja pela temática - as memórias de um ex- -oficial nazi cheio de confissões de desumanidades - como pela forma com que o tema é tratado. Littell vendeu em França 700 mil exemplares. Em Portugal não há números, porque a editora não os divulga, mas há sinais que indicam que o fenómeno Littell está a instalar-se por cá.
Sétimo nos rankings da Byblos e da Fnac, As Benevolentes está actualmente esgotado, mas com a segunda reimpressão pronta a chegar às livrarias. "Está quase a ser considerado um livro maldito e isso é o melhor que pode acontecer em termos de promoção", declarou ao DN Pedro Sobral, director de marketing da Dom Quixote, a editora que desde o início se mostrou interessada em "arriscar" lançar no mercado português aquele que alguns críticos apontam como "um novo Gerra e Paz".
Será? A História da Literatura tratará disso. Para já, Pedro Sobral garante que foi uma aposta estratégica ganha pela editora recém- -comprada por Paes do Amaral. Sem divulgar o investimento, Sobral salienta os custos de uma edição que "não admite falhas" e que passou por um processo conturbado, a começar pela tradução.
Traduzido em tempo considerado recorde, dada a sua dimensão, o romance chegou a tempo às livrarias - ou seja, antes do Natal - apesar da morte do tradutor inicialmente escolhido pela editora, João Alfacinha da Silva, mais conhecido por Alface. O trabalho seria continuado por Miguel Serras Pereira, responsável, entre outros, pela recente tradução de D. Quixote, de Miguel Cervantes.
"Os maiores custos na produção deste livro tiveram que ver com o tempo e com os recursos envolvidos. Não pode ter falhas na revisão, tradução, comunicação e a colocação comercial tem de ser certa", precisa Pedro Sobral, que fala de um "verdadeiro contra-relógio".
"Era necessário que o livro estivesse à venda antes do Natal." Acabou por estar. Não com a antecedência desejada, mas com a ajuda da crítica e uma tarja promocional com o nome Goncourt - um dos mais prestigiados prémio literários em França, o livro acabou a conquistar os leitores portugueses.
"Ter o Goncourt associado é uma mais-valia. Mas mais importante do que isso são as críticas e os nomes de quem as assina. Foram favoráveis. Isso sim faz a diferença, como faz agora o boca-a-boca, o passe-a-palavra." Pedro Sobral prefere falar de um risco calculado. "Estamos perante uma grande obra que à partida garante a adesão dos leitores mais atentos e exigentes em matéria de literatura. Mas este também pode ser um livro capaz de conquistar novos leitores. Tira o fôlego. Dá cabo dos miolos. É feito para quem quer pensar." O discurso ultrapassa o marketing, reflecte as apostas literárias da Dom Quixote e assemelha-se, diz Pedro Sobral, ao recente encantamento do público português por outro autor praticamente desconhecido entre nós: Sandor Marai. "Esse é um caso de carinho. Este não. É mais violento devido às características do próprio livro."
A segunda edição de As Benevolentes tem a mesma tiragem da primeira e irá preencher o espaço vazio nas livrarias. Na Byblos, por exemplo, foi necessário fazer uma reposição de stock em dois dias, segundo informou ao DN António Ramos, um dos responsáveis por esta nova cadeia livreira. Outro exemplo, na Bertrand do Chiado venderam-se cerca de cem títulos numa semana e não param de entrar candidatos a ler Littell, o escritor que agora se quer esconder. Está em Espanha e não gosta de falar.|
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