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JOSÉ MIGUEL SARDO, em Coudes (Auvergne)
Objectivo: reunir cinco mil hoteleiros e restauradores para lançar um protesto nacional
Desde Janeiro que o combate à nicotina faz subir a adrenalina dos donos de cafés, bares, restaurantes e hotéis em França. A entrada em vigor da nova lei antitabaco fez com que dezenas de patrões, de norte a sul do país, entrassem em resistência, com medo de ver o negócio reduzido a cinzas. Hervé Ferreira é o porta-voz da recém-criada ANCHRE (Associação Nacional dos Proprietários Mobilizados de Cafés, Hotéis e Restaurantes), criada em Março para reunir patrões descontentes, revoltados ou apenas à beira da falência.
"Desde a entrada em vigor do decreto antitabaco, os grandes restaurantes das cidades registam 5% a 10% de perdas, mas a situação é muito mais grave nas zonas rurais, onde os cafés perderam quase 50% da clientela", revela ao DN gente. No pitoresco Hotel de La Poste, na aldeia de Coudes, na região de Auvergne, Hervé tornou-se um dos porta-estandartes do movimento, arriscando-se mesmo a ser multado, ao pôr em prática as excepções que defende para a lei.
"No primeiro mês proibi que se fumasse, mas comecei a ter perdas na ordem dos 35%. Se, ao início do ano, tinha quatro empregados, tive entretanto de despedir dois." Hoje, fumar é proibido no restaurante, mas ao balcão voltou a ser tolerado. "Não faço a apologia do tabaco, mas penso que, dentro do meu estabelecimento, tenho o direito de decidir se se pode fumar ou não. E esta é a única forma de ser leal para com os meus clientes habituais." À sua caixa de correio electrónica não param de chegar mensagens de apoio oriundas de várias associações de não fumadores e mesmo de alguns responsáveis políticos, sensíveis à questão dos bares, cafés e restaurantes em zonas rurais. "Aqui vivemos uma situação diferente das cidades. As pessoas encontram-se no café e gostam de beber cerveja e fumar um cigarro." A ausência de fumo acabou por inflamar o fogo da revolta.
O movimento quer reunir cinco mil proprietários para lançar protestos a nível nacional. Nos últimos meses, Hervé tem perscrutado o país à procura de outros revoltosos como ele. Várias centenas de estabelecimentos tiveram de fechar as portas nos últimos meses. "Posso dizer que um em cada dois cafés nas zonas rurais não respeita a lei." Hervé vive também sob ameaça da Associação dos Direitos dos não Fumadores, que lançou uma verdadeira campanha de denúncias, em França, disponibilizando na sua página da Internet formulários para entregar à polícia. Em resposta, e sem temer ser politicamente incorrecto, Hervé insiste sobre os argumentos que justificam uma revisão da lei para manter o direito de um estabelecimento se definir como fumador ou não fumador. "Temos os nossos números. Se em 1951, quando 71% dos homens fumavam em França, havia 30 mil casos de cancro, hoje fumam cerca de 50-60% e os casos de cancro aumentaram para 103 mil. Ou seja, não existe uma relação directa entre o fumo e o cancro."
Nascido em França, a família, natural da Maia, apoiou-o desde o início nesta luta, assim como os clientes, que junto ao balcão aplaudem o irredutível patrão. "Temos de combater esta intromissão crescente na nossa esfera privada", afirma um dos clientes habituais, "hoje é o tabaco, amanhã será o álcool, e nesta espiral quem perde são os clientes, primeiro, e depois os patrões dos ho- téis e restaurantes", afirma. Apesar da determinação de Hervé, a lei em França pune cada cigarro acendido no interior do seu estabelecimento, com uma multa de 68 euros para o fumador e de 138 euros para o dono do estabelecimento.
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