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por PATRÍCIA VIEGAS
Entrevista com Marianne O'Conno directora-geral da Conferência de Religiosos da Irlanda (CORI).
18 das 138 congregações representadas pela Conferência de Religiosos da Irlanda, CORI, são referidas no relatório Ryan.Como explica os abusos que aconteceram contra crianças que frequentavam escolas geridas por essas congregações religiosas durante o século XX?
Ainda estamos a tentar responder a isso e consideramos que essa é uma questão que temos que enfrentar. O facto de a Irlanda ser um Estado emergente, à altura dos factos; a pobreza generalizada; a compreensão psicológica da infância, que hoje é comum, mas não existia então; a falta de formação dos que trabalhavam nessas instituições e a teologia prevalecente à época. Estas são apenas algumas das explicações que têm sido adiantadas. Também deve ser levado em conta que, na sociedade irlandesa, em geral, nos lares e nas escolas, havia uma abordagem de disciplinar as crianças e isso, lamentavelmente, envolvia castigos corporais. Muito bem foi feito pelos religiosos na Irlanda, nesta altura, em termos de educação e saúde - mas a questão de saber porque tudo passou despercebido e sem inspecção permanece.
As vítimas de abusos físicos e sexuais querem que a Igreja lhes pague, directamente, 600 milhões de euros. Acha que a Igreja deve pagar?
Ao abrigo do acordo, de 2002, entre as 18 congregações e o Governo, baseado numa estimativa dos custos de compensação que provavelmente iriam ter lugar, os religiosos envolvidos na gestão das instituições do Estado transferiram 128 milhões de euros para as vítimas. Isto era baseado em dinheiro e em propriedades. 12,5 milhões de euros foram para um fundo de educação e formação. 10 milhões para aconselhamento. 6,5 milhões adicionais foram dispensados para serviços de aconselhamento. É agora sabido que o número de pessoas elegíveis para receber compensação do Conselho de Indemnizações [que junta dinheiro do Estado e da Igreja] ultrapassou todas as previsões e a estimativa dos custos é agora de mil milhões de euros. As congregações envolvidas com as instituições analisadas pela comissão Ryan, foram instadas pelo Governo a fazer uma avaliação dos seus bens. O Governo estabeleceu um painel independente para analisar os bens de cada uma. O desafio não é só arranjar dinheiro, embora isso deva ser feito. O desafio é encontrar formas de trazer conforto, assistência continuada aos que foram abusados. Os fundos adicionais, quando fixados, poderão ir para iniciativas nas áreas da habitação, educação, literacia, vícios, aconselhamento, cuidados de saúde. É preciso ver também que muitas congregações já providenciaram alojamento, formação, aconselhamento e apoio para os seus antigos alunos e continuam a fazê-lo. E é também preciso ver que cada uma das congregações tem autonomia dentro da estrutura CORI.
Que parte tem o Estado na culpa do que aconteceu?
A culpa não reside apenas na Igreja, mas também no Estado, que falhou no seu papel de regulador, no sistema judicial e na sociedade irlandesa, em geral, que fechou os olhos e nunca questionou o sistema. Acho que é difícil para alguém com menos de 40 anos perceber o que aconteceu. E para os que são mais velhos isso revela que não questionávamos a nossa vida e os nossos tempos.
Como podem os responsáveis pelos abusos ser punidos?
Nos casos em que possa ser provado que ocorreram actos criminosos a lei deve ser aplicada da forma mais rigorosa e, nalgumas ocasiões, tem sido.
Acha que ainda se vai a tempo de fazer justiça, tendo em conta que muita gente, vítimas e abusadores, já morreu?
Nós devemos sempre lutar por fazer justiça. Esse é um imperativo do Evangelho. Como religiosos, temos que continuar a tentar viver de forma autêntica o evangelho de Jesus Cristo. Também temos que procurar o perdão. Mas perdoar não é esquecer. Também precisamos de dizer a verdade e ajudar os nossos próprios membros a lidar com a realidade que agora emergiu. Não estamos onde estávamos há 40 anos. Foram pedidas desculpas públicas aos sobreviventes por todas as congregações religiosas envolvidas.
Como podem ser evitadas, no futuro, situações semelhantes?
Para evitar este tipo de abusos, no futuro, precisamos, a nível estatal, de uma legislação efectiva e de um acompanhamento rigoroso da implementação dos procedimentos de salvaguarda das crianças. Ao nível da Igreja, os bispos, a CORI e a União de Missionários Irlandesa, juntos, estabeleceram um organismo independente, o Conselho Nacional de Salvaguarda das Crianças, o qual já está a ser reconhecido a nível nacional pelas suas medidas. O desafio de todos nós é garantir que nenhuma criança é hoje abusada em nenhum sector da sociedade irlandesa e que o mesmo nunca mais vai acontecer.
Alguma vez esteve numa das escolas onde havia abusos?
Enquanto criança, até aos 11 anos, frequentei uma escola primária num convento, que tinha um orfanato agregado. Os órfãos eram educados em separado e o sentimento que eu tinha, enquanto criança, era o de que eles eram "diferentes". E embora houvesse muita gente pobre na minha escola, de alguma forma eu tinha a ideia de que "eles" eram ainda mais pobres do que nós. Nunca visitei nenhuma das suas salas de aula ou residências porque éramos desencorajados a ter algum tipo de comunicação com eles.
Tags: Globo, Europa, Educação
A má educação
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