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por HUGO COELHO
Quando há 15 meses lhe foi diagnosticado um cancro no cérebro, o senador prometeu dar à sua história um "final feliz". Passou os últimos dias na companhia da mulher a comer gelados, a ver filmes de James Bond e a brincar com os cães
Ao contrário dos irmãos mais velhos - Joe, John e Robert -, que perderam a vida, prematuramente, vitimados por balas, Ted Kennedy ficou à espera da morte com um sorriso. Quando há 15 meses lhe diagnosticaram um cancro no cérebro, o senador prometeu dar à sua história "um final feliz". E fez por cumprir o prometido. Dias antes de morrer, na noite de terça-feira, Ted mergulhava a colher nos gelados de pepitas de chocolate e bolacha, os seus preferidos, enquanto revia, ao lado da mulher, todos os filmes de James Bond.
Ted, o menos dramático dos Kennedy, não correu para dar à sua vida um grande epílogo. Começava todos os dias a ler o jornal e a beber um café, seus rituais sagrados. Depois ia passar a mão na barriga de Sunny e Splash, os seus adorados cães de água portugueses, no alpendre da casa de Cape Cod a olhar para o oceano.
Conta o New York Times, que nos dias em que se sentia melhor, a sua mulher, Vicki, organizava jantares de família e Ted sentava-se na mesma mesa onde comia lagosta com os irmãos quando era criança. Numa das noites fez um dueto com o filho Patrick para cantar "You are my Sunshine" (Tu és a minha luz do sol).
"Houve momentos muito felizes até ao fim, disse ao NewYork Times Lawrence C. Horowitz, ex-chefe de gabinete do senador. "Houve muita franqueza, muitas abraços e muita emoção."
A única razão por que Ted correu contra o tempo foi a política e as suas memórias. Aos mais próximos, dizia que tinha que "deixar as coisas feitas para a história".
O velho leão liberal foi obrigado pelos médicos a deixar Washington e o Senado. Mas não deixou de acompanhar de perto o debate pela reforma da saúde, a "batalha da sua vida".
Ted não viveu para ver todos os americanos com cuidados de saúde. A morte era esperada, mas não deu tempo para os seus filhos chegarem a tempo de se despedir. Terça-feira, Ted não conseguiu levantar-se da cama e rezou.
Ontem, o corpo foi levado para a Biblioteca JFK. O funeral é amanhã, na Basílica da Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Boston. Depois será enterrado em Arlington ao lado de John e de Robert.
O mais novo dos Kennedy carregou o mito de Camelot desde 1968, quando fez o elogio fúnebre de Robert. Amanhã Barack Obama fará o elogio fúnebre dele.
Há um ano, quando discursou a favor do afro-americano, Ted disse que "o sonho viverá com ele".
Tags: Globo, EUA e Américas
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