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por José Miguel Sardo
Ou a França perdeu o sentido de humor ou o humorista Dieudonné M'Bala M'Bala descobriu os limites do sarcasmo como arma contra o politicamente correcto. Há vários anos que as piadas cáusticas do comediante sobre negros, muçulmanos e judeus deixaram de provocar gargalhadas. Nas salas de teatro, as denúncias do cómico contra o lóbi judaico em França suscitam agora sorrisos amarelos, anulações de espectáculos, manifestações violentas, processos e con- denações em tribunal por incitação ao ódio racial.
A sua última aposta política são as europeias de 7 de Junho, mas a sua lista "anticomunitária" e "anti-sionista" já esteve para ser interdita pelo Governo francês.
O humorista franco-camaronês de 43 anos, que no início dos anos 90 divertia o país com uma dupla insólita, ao lado de um comediante judeu, tornou-se hoje no protagonista das tensões comunitárias e do racismo que se habitou a caricaturar sobre o palco. No popular duo Élie & Dieudonné, o actor encarnava o personagem Bokassa, um negro, lado a lado com Cohen, um judeu, numa paródia aos preconceitos sobre as duas comunidades e ao discurso xenófobo da Frente Nacional de Jean Marie Le Pen. Uma provocação num país atormentado pela memória da deportação de judeus para campos de concentração nazis, pelo passado colonialista em África e pela tensão entre muçulmanos e judeus inflamada pelo conflito israelo-palestiniano. Mas a ousadia de tentar reconciliar duas comunidades através do humor acabaria por levar à ruptura do duo, em 1997, oficialmente por razões "mais pessoais que profissionais". Desde então, os sketches contra o racismo e a discriminação alimentam o discurso de um Dieudonné convertido em "resistente" e político militante.
Nas regionais de 1998, o comediante lidera a campanha de uma lista baptizada "utópicos", contra a Frente Nacional, de extrema-direita, em 2004 cria a lista "Europalestina", para defender a causa palestiniana, em Março deste ano e em resposta à polémica em torno das suas declarações "anti-semitas", decide reunir as figuras "pouco recomendáveis" do país numa lista "anticomunitarista e anti-sionista" às eleições europeias.
Ao contrário de Coluche, que nos anos 80 se candidatara às presidenciais francesas para parodiar a política, Dieudonné vai perder o sorriso ao transformar o palco em tribuna. Em 2003, um sketch à TV pública vai causar a ira da comunidade judaica. Disfarçado de judeu ultra-ortodoxo e entoando Heil Israel, Dieudonné afirma: "Incito os jovens nos subúrbios a converterem-se como eu (...) juntem-se ao eixo do bem, o eixo americano-sionista". Desde então, as aparições em palco do actor rivalizam com as convocações em tribunal. As diversas condenações levaram salas de espectáculos como o Olympia a cancelarem os espectáculos do humorista e o presidente da Câmara de Paris, Bertrand Delanoë, a defender a proibição dos seus espectáculos na capital.
Uma polémica que vai marcar o novo repertório do artista que num espectáculo na Argélia classifica o Holocausto como "pornografia memorial", citando uma historiadora israelita para se interrogar sobre as razões pelas quais "não se assinalam também os 400 anos de escravatura?" Apresentando-se como politicamente "anti-sionista" para denunciar o apoio francês a Israel ou para defender em público movimentos islamitas como o Hamas palestiniano ou o Hezbollah libanês, o comediante rejeita as acusações de anti-semitismo.
Banido da televisão, criticado pelas associações de luta contra o racismo e anti-semitismo, refugiado no Teatro de la Main d'Or, que adquiriu em Paris, só as declarações polémicas de Dieudonné vão continuar a ser notícia nos media, quando critica a "submissão dos dirigentes franceses ao conselho dos judeus de França", ou afirma "preferir o carisma de Ussama Ben Laden ao de George W. Bush". No final de 2008, em pleno espectáculo, atribuiu ao filósofo Robert Faurisson o prémio "da insolência" pelas teses negacionistas do Holocausto.
Um humor negro que cativa um novo público entre os jovens dos subúrbios pobres do país. Entre provocação e insolência, a apresentação da sua lista "anti-sionista" levou o chefe de gabinete do Presidente Sarkozy a exigir há dias a interdição da candidatura. No elenco de personalidades "pouco frequentáveis encontram-se dissidentes da extrema-direita, o fundador de um partido anti-sionista e até um escritor que põe em causa a tese dos atentados do 11 de Setembro.
Vinte e nove anos antes da polémica criada por Dieudonné, o humorista Coluche já afirmava que "os homens políticos são artistas de espectáculo, por isso qualquer artista pode ser político".
Tags: Globo, Europa
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