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O dia em que Galilieu viu de perto o que estava longe

por NUNO GALOPIM  

O dia em que Galilieu viu de perto o que estava longe

Passam hoje 400 anos sobre o dia em que Galileu Galilei apresentou o seu telescópio às autoridades venezianas. O instrumento por si desenvolvido revelar-se-ia peça fundamental para avanços na astronomia, entre os quais a descoberta de quatro luas de Júpiter e a confirmação das ideias de Copérnico sobre o sistema solar

Foi a 25 de Agosto de 1609. Há precisamente 400 Galileu Galilei apresentava o seu telescópio ao dodge e aos outros elementos das esferas mais poderosas da cidade de Veneza. O momento em si revestiu-se de significados essencialmente oficiais e até mesmo profissionais, uma vez que em sinal de agradecimento por mais uma conquista que engrandecia a ciência (e a cidade), o senado veneziano ofereceu a Galileu um novo estatuto e salário. Foi contudo a contínua exploração e melhoramento do instrumento e a sua utilização na observação dos céus que, nos anos seguintes, fez do telescópio uma peça fundamental para o repensar da própria relação entre a Terra e o universo ao nosso redor.

Galileu, que na época vivia em Pádua, tinha ouvido falar de uma invenção de um holandês (Hans Lippershey, fabricante de lentes) que permitia ampliar os objectos que observava à distância. Decidido a aperfeiçoar a ideia, reflectiu, acabando por construir o seu primeiro telescópio que, na verdade, mais não era que um tubo de chumbo, a cujas extremidades adaptou lentes. Côncava junto ao olho que observa, convexa no topo oposto... Começou por conseguir uma ampliação de três vezes, atingindo algum tempo depois as trinta vezes...

É com esta ampliação que faz observações mais detalhadas que nunca da superfície lunar. E, mais tarde, de Júpiter, acabando inclusivamente por descobrir os seus primeiros quatro satélites (Europa, Ganimedes, Calisto e Io), que ainda hoje são conhecidos em conjunto como as luas galileanas. Apontando em observações diárias os quatro pontos que originalmente identificara junto a Júpiter, inferiu que seriam satélites naturais do planeta e que deveriam desenvolver órbitas em seu redor. Entre as grandes descobertas que o telescópio lhe permitiu observar contam-se ainda as manchas solares e as fases do planeta Vénus.

Muitas destas descobertas foram publicadas pelo próprio Galileu em Sidereus Nuncius, em 1610. Mas nem todos acolheram as novidades com igual entusiasmo. Houve até quem se recusasse a espreitar por um telescópio. Em defesa de Galileu o astrónomo holandês, confirmou as suas observações sobre os satélites de Júpiter em 1611.

As observações e reflexões de Galileu fizeram dele um defensor da visão, igualmente aceite por Copérnico, de um modelo para o sistema solar que, contra o que durante séculos fora defendido, colocava o Sol e não a Terra no centro de tudo. Polémica na época, esta visão contrariava a tese geocêntrica, dita ptolomaica, e apoiada por Aristóteles e, mais tarde, a Igreja Católica. A defesa da visão heliocêntrica, originalmente levantada por Aristarco de Samos mas cientificamente sustentada mais tarde por Nicolau Copérnico, valeu a Galileu uma primeira denúncia à Inquisição.

Galileu tinha passado por Roma em 1611, dando a observar os satélites de Júpiter e as demais observações que sustentavam a sua visão. Mas, acusado de ideias "perigosas", voltou à cidade para se defender, acabando então por aceitar o silêncio. Obrigando-se igualmente a não divulgar as visões de Copérnico.

O silêncio não seria longo. E em 1633 um novo texto gerava novo julgamento, que culminaria com a sua prisão domiciliária até ao fim da vida. Corre a lenda que, apesar de obrigado a negar as suas convicções, terá dito, referindo-se à Terra, "e no entanto ela move-se..."

Tags: Ciência


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