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por FILOMENA NAVES
Grupos de oito investigadores em neurociências descobriu que o 'stress' crónico afecta as zonas do cérebro ligada à acção por objectivos. Os stressados entram em piloto automático e fazem coisas que acabam por ser desadaptadas à realidade. O estudo foi publicado ontem na revista 'Science'. Os investigadores vão continuar a trabalhar nesta questão.
O stress prolongado, ou crónico, como lhe chamam os cientistas, não faz nada bem. Por exemplo, à memória - há estudos que o comprovam, e que mostram que ele interfere com as estruturas cerebrais que a suportam. E foi um grupo liderado pelo médico e investigador Nuno Sousa, da Universidade do Minho, que desenvolveu essas investigações. Agora um novo estudo, coordenado pelo mesmo Nuno Sousa e por Rui Costa, que dirige o programa de neurociências da Fundação Champalimaud, no Instituto Gulbenkian de Ciência, foi ainda mais longe. A equipa, que inclui mais seis investigadores portugueses, descobriu que o stress crónico afecta a tomada de decisão por objectivos.
Ou seja, perante uma situação que exige uma acção com um determinado propósito, o stressado não consegue desligar o modo de acção por hábito, e isso pode ter consequências negativas. Exemplo: se no regresso a casa, alguém (que vive em stress crónico) precisa de fazer um desvio que não é habitual para ir às compras pode dar consigo próprio a chegar a casa, sem ter feito aquilo que se propunha. Estava em piloto automático.
No seu estudo, que ontem foi publicado na revista Science, os investigadores portugueses descobriram que a estes comportamentos corresponde uma alteração das estruturas cerebrais envolvidas nessas acções.
Devido ao stress crónico, os circuitos cerebrais envolvidos na acção por objectivos, que estão localizados no córtex pré-frontal e no estriado dorsomedial, sofrem uma atrofia, enquanto os circuitos ligados às acções por hábito (no estriado dorsolateral) florescem. Se os neurónios (as células cerebrais) fossem árvores, as primeiras ficavam quase sem ramos, enquanto as outras se tornavam muito frondosas.
"São alterações físicas concretas e visíveis", diz Rui Costa, um dos coordenadores da pesquisa, sublinhando que "a hipertrofia (crescimento exagerado) dos circuitos ligados à acção por hábito leva à sua utilização preferencial, uma vez que os circuitos necessários ao outro tipo de acção ficaram atrofiados".
A ideia da realização deste trabalho surgiu de uma feliz coincidência. Rui Costa e Nuno Sousa já conheciam o trabalho um do outro mas nunca tinham colaborado antes. "Isso era algo que queríamos fazer um dia, mas nunca se tinha proporcionado", conta Rui Costa, que só há dois meses regressou a Portugal, para ficar a tempo inteiro no programa de neurociências Champalimaud. Até agora dirigia nos institutos de saúde dos Estados Unidos (NIH) o Laboratório de Neurobiologia de Acção, onde aliás foi feita uma parte deste trabalho.
Foi então que apareceu o jovem estudante de doutoramento Eduardo Dias-Ferreira, agora com 29 anos. "Tinha feito investigação no laboratório do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho, sobre o efeito do stress crónico no sistema nervoso central, e depois tomei contacto com o trabalho de Rui Costa, sobre a neurobiologia da acção, e lembrei-me de juntar as duas coisas", conta Eduardo Dias-Ferreira.
Nuno Sousa e Rui Costa gostaram da ideia, que foi aperfeiçoada em várias sessões de trabalho. E os resultados aí estão.
O que segue é o estudo sobre as causas moleculares das alterações no cérebro, devido ao stress. "Perceber como será possível neutralizar a sua acção, é um dos objectivos", sublinha Nuno Sousa.
Tags: Ciência, stress
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