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por JOÃO CÉU E SILVA
Veio viver para Portugal em 1980 e recorda o País de então como "quase medieval".
Dá exemplos: o comboio demorava sete horas entre o Porto e Lisboa, as casas de banho públicas eram imundas, quase impossível comprar um jornal internacional se não fosse na Baixa de Lisboa ou do Porto e as crianças de 12 anos trabalhavam na construção civil. De lá para cá, acompanhou a mudança de um país "completamente isolado do mundo, cultural, económica e psicologicamente" e não compreende como é que os líderes partidários disseram "não estamos a fazer progressos" na última campanha eleitoral.
O Porto foi a opção natural para morar quando deixou São Francisco, uma cidade que encontrou hesitante entre o medieval e a modernidade mas num país onde descobriu um editor para o seu manuscrito O Último Cabalista de Lisboa, que já tinha sido recusado por 24 editoras norte--americanas. A Quetzal publicou-o e foi um sucesso que entrou na tabela dos livros mais vendidos em Portugal e ultrapassou fronteiras.
Recentemente, publicou um novo romance, Os Anagramas de Varsóvia (Dom Quixote) que tem estado entre os dez livros mais vendidos em Portugal. Trata-se de um livro pesado pela sua temática, mas revelador do pesadelo que foi a vida de milhões de judeus durante a II Guerra Mundial. Parte da descoberta de um manuscrito escondido sob o chão de uma casa de Varsóvia.
Portugal está muito presente na sua obra. É-lhe difícil evitar?
Portugal é essencial aos meus livros e, mesmo neste último, que não decorre cá, o País está presente de qualquer modo, porque há coisas que desconheceria se não vivesse em Portugal.
Mas não se sente um escritor português?
Sinto-me um escritor português e tenho cidadania portuguesa, porque não quero ser um cidadão nem um escritor de segunda. Em Portugal, ainda se tem o hábito de identificar a cidadania com a língua - o que aconteceria na Índia, onde há 50 línguas? - e a ideia de que um autor que não escreve em português não pode ser um escritor nacional. Eu falo português no meu dia-a-dia, mas pergunto-me porque é que não posso optar por escrever em inglês e manter-me um escritor 100% português? Até em Espanha há escritores que escrevem na língua basca, galega ou em dialecto e que são escritores espanhóis!
Sente-se marginalizado?
O que há é uma confusão entre cidadania e língua, que era o que o ex-ministro da Cultura fazia, pois nunca me convidava para nada. Não me considerava um autor português, apesar de pagar impostos como qualquer outro neste País.
"Há judeus que não aprendem as lições da história." Disse-o há tempos; ainda pensa assim?
Sim. Já não tenho muita confiança em que consigamos aprender com a história.
Os judeus ou toda a gente?
Todo o mundo, basta ver o exemplo da guerra no Iraque. Foi dito pelo Governo Bush - e pelos jornalistas também - que o povo iraquiano iria receber de braços abertos as tropas norte-americanas. Só que quem viveu a guerra no Vietname, como eu, em jovem nos EUA, sabia que isso era impossível e uma mentira. Mesmo assim, votaram duas vezes em Bush. Quanto mais não seja, só por isso já perdi a fé nos ensinamentos da história. Quanto aos judeus, fazem parte da humanidade que nada aprendeu. Não me esqueço que os meus parentes europeus morreram todos nos campos antes de serem internados nos guetos de Varsóvia e Lodz. Se eu quiser ser mais controverso, diria que neste livro sobre o gueto de Varsóvia há judeus que não entenderam que encurralar um povo numa pequena secção da cidade e negar-lhe condições humanas não é opção.
E tem correspondência actual?
A Faixa de Gaza, por exemplo. O gueto de Varsóvia está para aquela altura como a situação desta região hoje. Há diferenças, evidentemente, o regime não é nazi e não há qualquer tentativa por parte de Israel em exterminar os palestinianos.
Não há paralelismo mesmo?
De exterminar, não. De delimitar, sim, e de colocar aquele povo num pequeno canto do Médio Oriente. Mas esse é só um exemplo, temos imensos casos de crueldade humana em África. Concluindo, não aprendemos muito com a história.
Tem aumentado a sua produção literária. Porquê?
Deixei de dar aulas há três anos e dediquei-me só à escrita.
A literatura portuguesa interessa-o?
Confesso que leio muito pouco, porque há tanto para ler em inglês que fico sem tempo e, também, sinto necessidade de manter a relação com a língua-mãe. Escrevo em inglês, mas vivo o dia-a-dia em português e acabo por esquecer palavras inglesas. Quanto a autores portugueses, adoro os contos de Miguel Torga, porque o acho um grande escritor! Está fora de moda no País - não sei bem porquê - mas as modas passam.
Tags: Artes, Livros
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