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por MARIA JOÃO CAETANO
Luis Sepúlveda está em Portugal para lançar o seu último livro, A Sombra do que Somos (Porto Editora). Hoje, às 18.00, no El Corte Inglés, em Lisboa.
Como é ter 60 anos?
É uma sensação muito agradável. Tenho experiência, tenho um caminho percorrido, sinto-me bem.
É inevitável, quando se chega a esta idade, olhar para trás e sentir-se "uma sombra do que foi"?
Sinto que projecto uma sombra que é bastante forte, é a sombra da minha geração que teve uma importância muito grande naquilo que estão agora fazendo os mais jovens, acho que estes nos vêem como referências.
A ideia da sombra é positiva? Não tem a ver com sentir-se uma sombra do que já foi?
Não, não, é uma ideia bastante optimista. Primeiro, porque para haver uma sombra tem de haver bastante luz, e nós temos uma luz muito forte que é a luz da nossa razão. Por isso temos uma sombra forte, definitivamente.
Os velhos persistem nos seus livros. Aqui aparecem logo na primeira frase.
Sempre me fascinaram os velhos, têm algo muito bonito que é o percurso que fizeram, a experiência, os erros, os fracassos, algo que está aí, que se pode ver. Neste caso, queria contar a história de quatro veteranos que se juntam para uma última aventura. Estas personagens estão muito próximas de mim, têm muito da minha experiência, têm a minha idade. Chegou a hora de escrever sob o ponto de vista dos velhos.
Mas com a idade não se perde também aquela vontade de mudar o mundo, o acreditar que é possível?
Eu não perdi. Os ideais permanecem porque há coisas no mundo que continuam mal. O sentimento de justiça social não tem idade, não tem época, é algo definitivo. Claro que o mundo também muda e as atitudes das pessoas têm que se adaptar. Mas o fundamental é que o velho desejo de mudar o que está mal é igual e tão forte quanto antes.
Esse optimismo está presente neste livro?
Acho que está. A partir de um aparente desencanto, estas personagens falam do seu passado e fazem algumas perguntas, por exemplo: porque fazíamos as coisas assim? E descobrem essa figura metafórica que é a sombra os desafia e encoraja a fazer alguma coisa. Avançam para uma última aventura, que possivelmente vai fracassar, mas que revela que têm os mesmo valores e a mesma vontade de fazer.
Mas a verdade é que eles não conseguem recuperar o passado.
O passado não se pode mudar, foi o que foi. Há algo nesses quatro que é profundamente subversivo que é o humor. E isso permite-lhes olhar para o passado com uma ironia sã.
É assim que olha para o seu passado?
Sim, com muito carinho e com muito humor. Este livro nasceu há três anos, quando me juntei com um grupo de amigos da juventude para um jantar em Santiago do Chile. Começámos a falar dos netos e depois falámos do tempo de Allende, do exílio, e todos contavam as coisas com um sentido de humor extraordinário. Podíamos ter mágoa por ter sido uma desilusão, mas não tínhamos. Havia uma alegria muito grande de saber que nós, por decisão pessoal, nunca tínhamos sido corruptos. Cometemos erros, claro, éramos muito jovens e éramos poucos para um processo tão grande. Desse jantar saiu a ideia de escrever este livro com um grupo assim de veteranos que se reúne para uma última aventura.
No livro fala muito da experiência do exílio, foi uma experiência determinante para si?
Todas as experiências são determinantes, sobretudo se pensarmos que para a minha geração o 11 de setembro de 73 foi muito mais do que um golpe de estado e o fim de uma democracia exemplar, foi o fim da nossa juventude. Terminou nesse dia. Eu tinha 23 anos e, como muitos outros companheiros, e tive de começar a agir com a maturidade uma pessoa de 40 ou 50 anos para sobreviver. O exílio foi, por um lado, um castigo, muitas pessoas não o suportaram, e, por outro, uma espécie de bolsa de estudos no estrangeiro, porque foi uma oportunidade para conhecer outras realidades. E para lutar, a ver se noutros locais era possível concretizar algo do que sonhávamos.
O regresso é difícil. Procuram um país que deixaram mas já não é o mesmo.
Do exílio não se regressa nunca. É definitivo. O país que deixamos existe só conservado na memória, é, como digo no livro, o país de Peter Pan, nada envelhece, nada muda. Mas depois confrontamo-nos com o país real e é difícil. Temos saudades das pessoas que conhecemos, dos locais onde estivemos, Vivemos com o coração partido.
Mas a casa é sempre no nosso país?
A casa é onde nós estamos sentimentalmente. As casas também vão mudando. Normalmente a casa é onde está a nossa família, mas os anos passam, os filhos crescem, voam com asas próprias, porque têm de o fazer, e chegamos a um estádio maravilhoso em que a nossa família são os nossos amigos. E aí a casa muda-se.
Tags: Artes, Livros
Fotografia © Tiago Lourenço - DN
O reencontro em Santiago do Chile
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