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por LUÍS FILIPE RODRIGUES
Quentin Tarantino demorou mais de dez anos a concluir 'Sacanas Sem Lei', o seu "filme de guerra". O resultado final é uma homenagem à história do cinema, mascarada de fantasia de vingança, em que um grupo de judeus liderado por Brad Pitt massacra nazis e tenta acabar com o III Reich
Quentin Tarantino queria fazer um filme de guerra à antiga, com um grupo de homens numa missão. A acreditar nos cartazes promocionais, teria feito precisamente isso. Mas essas primeiras imagens induziam o espectador em erro. Sim, a acção decorre na França ocupada e meia dúzia de militares judeus mata um número exagerado de nazis, mas, no fundo, Sacanas Sem Lei é mais um testemunho do amor do americano pelo cinema, com tantas (ou mais) referências cinéfilas como qualquer filme da sua carreira.
A história deste projecto, o "filme de guerra de Quentin Tarantino", começa há mais de uma década, após a estreia de Jackie Brown (1997). Dizia-se então que era uma recriação de Doze Indomáveis Patifes (The Dirty Dozen, no original), realizado por Robert Aldrich em 1967. Mais tarde, que era um western spaghetti ambientado na França ocupada. Ou que era um remake de The Inglorious Bastards (título inglês do exploitation italiano Quel Maledetto Treno Blindato, de 78). E, em diferentes momentos, vários heróis de acção estiveram ligados ao projecto.
Mas quando em Maio a fita, que hoje se estreia em Portugal, passou em Cannes, ficou claro que estes relatos pouco tinham a ver com o produto final. Por um lado, os "sacanas" do título não são as únicas personagens, e muito menos as principais. Por outro, são os diálogos e reflexões das figuras que entram e saem de cena que se destacam, apesar de, regra geral, os capítulos acabarem com um banho de sangue.
Sacanas Sem Lei é, assim, mais que a história de um grupo de judeus, liderados por Brad Pitt e decididos a acabar com o III Reich, reunindo o maior número possível de escalpes nazis enquanto o fazem. É isso, mas é também a história de uma judia, interpretada por Mélanie Laurent, que usa as bobinas de 350 fitas em nitrato para pegar fogo à sala onde se encontram os principais líderes alemães, como Hitler ou Goebbels. Ou de Hans Landa, "o caçador de judeus" que vai desempenhar um papel fulcral nesta história alternativa e revisionista.
Esta última personagem é, de resto, uma das mais interessantes. E Christoph Waltz, o actor austríaco que encarna o coronel nazi, foi distinguido em Cannes e é uma das revelações de um elenco onde não faltam intérpretes europeus. Não só, mas também, porque no espaço de duas horas e meia, o ouvimos falar fluentemente quatro línguas, francês, inglês, alemão e, por fim, italiano.
Tags: Artes, Cinema
Picasso,heterodoxia e antinazismo
Um delírio longe de mais
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