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por JOÃO CÉU E SILVA
Deve ser o português que mais compatriotas faz chorar e rir. Como? Através das peças que apresenta nos teatros Politeama e Rivoli e que rivalizam com as que são encenadas no West End londrino ou na Broadway nova-iorquina. É o único produtor cultural de dimensão que não vive dos subsídios do Estado e que, mesmo assim, não fechou a porta. Pelo contrário, vai inaugurar em breve um teatro novo, o ex-cinema Olímpia.
A participação nas telenovelas prejudica o crescimento dos nossos actores?
Não! O problema não diz respeito só aos actores, o teatro ou é bom ou é mau. Quando é bom, tem sempre público. Quando é mau, não terá… Eu sei que o teatro, seja o ligeiro seja o clássico, pode ser um sucesso, e eu, que trabalho sem subsídios - sou esse animal raro no panorama do teatro português -, sei o que é receber apenas o subsídio do público. O Amália esteve seis anos em cena, com mais de seis milhões de espectadores, o My Fair Lady teve dois milhões de pessoas, o Música no Coração foram mais de três milhões de espectadores, o Jesus Cristo Superstar só no Portimão Arena, durante um mês, recebeu 50 mil espectadores. Ultrapassámos todos os concertos rock.
Para quem contracenou com Amélia Rey Colaço, não está a ser simpático...
E com a grande Palmira Bastos!
Que eram actores com outra dimensão.
Que ainda hoje seriam actores geniais. A Amélia Rey Colaço é, sem dúvida, uma das figuras mais importantes da cultura do séc. XX e no teatro a pessoa mais importante. Porque, além de estar 46 anos à frente do Teatro Nacional D. Maria II, teve uma companhia. Hoje em dia, infelizmente, não há uma companhia do Teatro Nacional nem há praticamente Teatro Nacional. Era uma grande companhia que deu a conhecer a maior dramaturgia portuguesa de sempre, desde os clássicos até aos autores mais modernos. Só não fez Brecht porque a Censura não deixou.
E há, actualmente, actores comparáveis?
Sim, a Eunice Muñoz ou o Ruy de Carvalho...
Disse dois nomes. É fácil encontrar mais?
Claro, o José Raposo, que é um grande actor em qualquer parte do mundo! Eu orgulho-me de saírem daqui jovens que são as estrelas no West End (Londres) como o Ricardo Afonso, a Bárbara Barradas - que foi a protagonista do West Side Story. Não são só os futebolistas que têm os principais papéis que os portugueses interpretam no mundo. E eu tenho orgulho a dobrar porque se estrearam comigo, ou seja, o Politeama também é uma escola, situação que vou concretizar ao fazer uma escola de artes do espectáculo no velho Olímpia. Não é por acaso que tenho a sorte e o privilégio de ter o grande público nas minhas peças.
Se não fosse o "subsídio público", não conseguiria fazer as suas peças?
Com certeza. Tenho de pagar no fim do mês a mais de duzentas pessoas! Contando com o Rivoli e o Politeama, já uma grande empresa.
Estes números fazem parecer que é o nosso Andrew Lloyd Webber…
Sim, ele próprio gosta dos meus espectáculos. Viu o Jesus Cristo Superstar, deu-me agora os direitos da Evita e temos uma boa relação. Gosta que as peças dele sejam feitas por mim e dá--me liberdade. O Jesus Cristo Superstar tinha uma encenação e uma concepção teatral completamente diferente da de Londres. E uma das coisas que também me orgulham é que, quando vêm cá, dizem que os nossos espectáculos são melhores que os da Broadway e West End.
No Jesus Cristo Superstar inovou mesmo ao pôr o 11 de Setembro em cenário!
Porque para mim não é um texto literário. Eu parto das peças para falar da minha experiência, da do meu país, das pessoas com quem trabalho e dos espectadores que vão ver. O 11 de Setembro marcou o fim do século XX e o início conturbado deste e pretendi dar uma metáfora do que é mundo actual. Quando vou a Nova Iorque, sinto-me na Roma Imperial em queda e vejo a Europa como a Grécia em decadência, democrática mas subjugada pela própria história. Esperemos que o mundo árabe não seja o novo cristianismo! Era essa metáfora.
A colónia árabe em Portugal vai ver as suas peças?
Tanto no Politeama como no Rivoli, o público é super-heterogéneo, temos de tudo porque contamos os espectadores por milhares! Não foi por acaso que o Politeama conseguiu mudar esta Rua das Portas de Santo Antão de uma zona de prostituição para o único ponto de festa constante de Lisboa.
E porque é que o Ministério da Cultura não lhe "agradece'" com alguns subsídios?
Acho que deve aproveitar e entrevistar o…
... ministro José Pinto Ribeiro?
Sim, e perguntar-lhe isso directamente. É um mistério a que eu não sei responder. Ainda me lembro de estar numa mesa-redonda com o actual primeiro-ministro e de ele ter dito: "Acho que o Estado português o trata muito mal." Agora, é ele o primeiro-ministro e continua a tratar-me muito mal. Portanto, habituei-me a viver à margem do poder.
Pode dizer-se que os portugueses votaram contra Sócrates nas europeias e a maior parte absteve-se...
Os portugueses estão muito desiludidos com a actual situação em que vivem. São impostos monumentais, os maiores da Europa, e não temos justiça, educação, cultura, agricultura... Não temos nada! Que país é que vamos entregar às outras gerações?
Acha que este Governo...
Não é só o Governo, é o regime e um problema mais profundo. É também o sonho de Europa que começa com o Victor Hugo e que está sob um futuro obscuro. Esteja o PS ou o PSD, parece que vivemos como no final de Primeira República. Só espero que não haja nem Sidónios Pais nem Oliveiras Salazares à espera. São dois partidos muito idênticos, com um discurso completamente igual e com uma prática que o povo português não sabe distinguir. É uma noção de quase tragédia nacional... Agora, dizer que é o senhor Sócrates ou a senhora não sei quê é quase irrelevante porque o problema já engloba a própria União Europeia. Eu viajo muito e fico inquieto ao ver tanta miséria em Londres, Paris. Até aterroriza.
E Portugal assusta-o?
Quando saio da minha casa em Lisboa, parece que estou a viver Os Miseráveis, do Victor Hugo, porque as pessoas expõem as feridas, as pernas e os braços partidos porque, de facto, vivem muito mal. Vai-se ao Rossio e pensa-se que se está noutro país! É uma época de passagem, mas muito inquieta a que vivemos e, sobretudo, com um grande desencanto do povo português. Eu recebo o público no teatro todas as noites e vejo-os sem esperança. E não há nada pior do que um povo sem esperança.
Com este público todo, se se candidatasse a um cargo, tinha hipóteses de ser eleito.
Se calhar a uma câmara! Mas eu não sou um político, sou um homem de teatro. Foi o meu sonho, desde criança e é o que eu sou.
Tanto faz ser Sócrates como Ferreira Leite ou até Durão Barroso na Europa…
O problema não está nas pessoas, o problema é mais a mentalidade que se criou e não se pode circunstanciar a um indivíduo. Até creio que Sócrates ou Ferreira Leite fazem o melhor que podem dentro das suas limitações. Eu não queria, nem que me dessem o mundo, ser primeiro-ministro em Portugal numa época destas. A questão está subjacente à própria maneira de pensar da humanidade, situação que se pode ver na apreciação que fazem da figura quase messiânica de Obama. Estranho o mundo virar-se todo para um Obama, que às vezes faz discursos em que não se percebe muito bem o seu cariz místico e religioso preocupante.
Está pouco crente no futuro?
Para onde caminha o mundo? Entrámos no século XXI e quando me lembro de vir em miúdo ao Olímpia e ao Politeama ver os filmes de ficção científica, pensávamos como seria bom viver nestes tempos. Que o homem iria evoluir muito mais e não que estivéssemos numa época primária, quase de Idade Média, com fundamentalismos aberrantes! Para entrar numa cidade tem que pagar, como o servo de gleba pagava ao senhor feudal o dinheiro para entrar no seu território? Quando vou nas auto-estradas, lembro- -me sempre da Idade Média!
Quando escolhe Piaf para encenar é porque este mundo o incomoda?
Estamos sempre a falar de nós próprios. Eu fiz a Callas, a Amália e agora a Piaf, porque são três mitos da minha adolescência que sempre quis pôr em cena. A Callas é a grande artista do canto do século XX e ainda hoje vende mais que os Rolling Stones. A Amália é uma mulher completamente oposta à Callas, aliás, eram amigas e falavam muito, mas a Amália não a apreciava. A fadista era uma mulher muito inteligente, que voa sobre tudo e nunca cai enquanto a Piaf tem o desejo do abismo. E é isso que acho extraordinário neste texto da Pam Gems, premiado pela crítica britânica, que não é um musical mas antes um espectáculo de teatro com um texto forte, polémico e agressivo até.
Os espectadores vão gostar deste género?
Ela transporta-nos para uma época especial, é uma sobrevivente a dois conflitos mundiais e a mãe da canção francesa. A Piaf é que cria o Aznavour e o Yves Montand e quanto da música francesa influenciou a nossa? O Zeca Afonso, o Adriano Correia de Oliveira, o Sérgio Godinho... Um dos meus sonhos era fazer um enorme espectáculo com a música e a vida do Zeca Afonso, que é um homem, o único talvez, que como dramaturgo me inspira. Eu ainda o conheci, era um livre-pensador e, principalmente, um artista. Não se pode pôr o Zeca Afonso numa gaveta, se é de esquerda ou não.
Mas está mitificado como de esquerda!
Sim, mas era uma pessoa com uma grande inquietação. Como cidadão, tem as suas opções, mas o verdadeiro artista está sempre a favor dos oprimidos e dos pobres. O Victor Hugo dizia - é a terceira vez que falo dele! - que a inquietação do artista não se pode catalogar.
A maior parte das suas peças são sobre mulheres…
Não! Então o Cristo, o West Side Story, a Gaiola das Loucas e o Violino no Telhado… Há um mito teatral de que a mulher é mais forte porque tem também a parte misteriosa do amor, o próprio mistério do eterno feminino, para além de que durante todos os séculos foi uma lutadora! Só o século XX é que foi da mulher. As nossas avós, coitadas, não saíam de casa. Era "a mulher e a sardinha querem-se na cozinha", não é?
Quer-se pequenina, mas também rima se for na cozinha...
Era uma coisa desse género, reaccionária, mas o facto é que essas figuras têm uma força de provocação muito grande. Lembro-me de a Amália ir actuar em Monte Gordo e de eu ter ficado abismado por estar no bar, de perna cruzada e a fumar, num cadeirão alto. Isto nos anos 50! Era um escândalo.
Esta peça, Piaf, não é só um musical?
Não é um musical, é mesmo uma peça de teatro em que a protagonista canta. A Piaf tem uma grande companheira de trottoir - digamos em francês para não chocar tanto - que acompanha toda a sua vida e faz um livro com autorização da própria. Esta escritora inglesa, a Pam Gems, pega no livro e transforma-o em teatro.
Opta por fazer este tipo teatro por se sentir marginalizado ao fazer bastante musical?
Não! Eu faço o que gosto! Estava em Londres, fui ver a peça e apaixonei-me. Mais nada! Eu faço o que gosto e agora adorava fazer uma peça que o Pedro Almodóvar me deu - Tudo sobre a Minha Mãe - que não tem nada de musical. E vou fazê-la em teatro!
No Politeama ou no Rivoli?
Ainda não posso dizer. Deverá ser noutro teatro de Lisboa, mas ainda está em negociações.
Tem saudades de representar no palco?
Não! Eu represento todos os dias, quando ensaio os actores, todos os dias faço as personagens, fiz os maridos todos da Piaf, a própria Piaf, o secretário, tudo!
Os actores não se sentem intimidados?
Não, porque tenho uma boa relação com eles e até me pedem para exemplificar muitas vezes. Não tenho essa inquietude de representar, de estar todos os dias a fazer a mesma coisa. Estreei a Piaf e já escrevi outra, tenho ali pronta a adaptação - que também a Metro-Goldwyn-Meyer deu pela primeira vez - de O Feiticeiro de Oz para teatro. E vou começar a ensaiar imediatamente.
Mas quando era actor gostava mais de representar peças sérias. Foi uma fase?
Não. Encenei Pasolini e todos grandes autores, até tive a primeira peça proibida após o 25 de Abril, sobre a Eva Perón, porque a Embaixada da Argentina ameaçou cortar a importação dos bifes e até o Vasco Gonçalves e o Vítor Alves se meteram ao barulho...
Também encenou peças da Agustina Bessa-Luís, uma do Mário Cláudio. Onde estão os dramaturgos portugueses?
Há e até existem jovens bastante bons, com uma escrita muito original e muito forte. Um Teatro Nacional e esses teatros subsidiados teriam obrigação de fazer uma programação que, como no tempo da Amélia Rey Colaço, fossem obrigados a representar portugueses…
E porque é que agora não se faz isso?
Também é uma pergunta que eu acho que deve fazer ao Dr.
... Pinto Ribeiro?
Pinto Ribeiro. Olhe já tem aí as perguntas para uma próxima entrevista.
Não adapta textos portugueses porquê?
Porque gosto de escrever as minhas peças. Não quer dizer que não venha a fazer um autor português se gostar da peça. Havia um jovem que estava sempre na Casa da Comédia à minha espera para lhe ler as peças. E eu, confesso, que não as lia até que um dia o fiz e achei que era um grande autor, que está completamente esquecido: o Miguel Rovisco. Foi muito maltratado e acabou por se suicidar. Tem peças que um dia gostaria de fazer e que falam muito sobre Portugal.
Tags: Artes, Teatro
Nuno Calvet
Não admira que La Feria diga isso. ...
há 170 dias, 21 horas e 19 minutos
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