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por Catarina Carvalho (texto), Orlando Almeida (fotos)
O seu novo livro, 'No Teu Deserto',vai ser lançado esta semana. Um "quase romance", como lhe chama. Uma narrativa intimista, autobiográfica, que mostra um homem diferente. Que está farto de Portugal e a pensar
Os livros que já vendeu já lhe permitiam não fazer mais nada a não ser escrever?
Permitem, se me permitem…
Quantos já vendeu?
Um milhão mais ou menos, deve estar em cima desse número. Se me permito fazer um safari onde não haja mais que seis pessoa no acampamento é graças a isso. Hoje em dia a minha vida é chapa ganha, chapa gasta. Escrevo um livro, recebo os direitos, vou viajar, encho-me de coisas que me ajudam a escrever outra vez, gasto nisso todo o dinheiro… Por exemplo, quando escrevi o Rio das Flores, fui quatro vezes ao Brasil.
Porque as editoras não pagam isso?
Até pagaria, se eu pedisse, mas acho que fazia parte dos meus encargos. Nem me passou pela cabeça pedir uma bolsa ao Estado. Podia ter ido só uma vez, ou não ter ido, ter comprado livros sobre fazendas… Mas eu quero ir lá, ver. Isso é um privilégio que pago com muito prazer, é uma excelente maneira de gastar direitos de autor. Também podia não o fazer e viver apenas disso, tranquilamente, hoje em dia.
Só da escrita?
Só da escrita.
Porque não o faz? É para aparecer, para depois vender mais livros?
Não, de todo! Tenho duas profissões, no fundo; jornalismo e escrita. Se bem que já não faço jornalismo activo, não faço reportagens, entrevistas. Estar nos jornais e na televisão é uma forma de não abandonar completamente o meio. E também não sou capaz de estar o dia inteiro a escrever. Tento descansar entre cada livro, escrevo devagar. Preciso de fazer coisas, tenho de encher o meu dia. Eu encho o meu dia escrevendo para os jornais, fazendo televisão.
Ultimamente as suas crónicas são muito pessimistas.
Porque estou muito zangado com Portugal.
Anda-lhe mesmo a apetecer ir-se embora, emigrar?
Onde é que foi buscar isso?
No dia 22 de Junho, na sua crónica que dizia que "o País está um sufoco, sem saída e sem viabilidade à vista".
Não, não! Essa ideia de que eu quero emigrar?
Não há ninguém que queira viver num país como este descrito por si. Pelo menos, no seu perfeito juízo.
Mas é verdade. Estou a pensar ir-me embora.
É?
É verdade. Estou a pensar nisso há um ano.
Para ir para onde?
Para o Brasil. É um país novo, de que eu gosto há muitos anos. E sou muito bem tratado sem ser popular na rua, o que é óptimo. É um país optimista, não está cansado, não está desiludido, sem esperança. Mesmo que agora haja tanta asneira feita no Brasil, todos os dias, não é? Só que eles têm espaço e tempo para uma maior dose de asneira do que nós. Agora desvendei uma coisa que não era suposto desvendar, mas é um plano que ando a alimentar há um tempo, de facto. Nós somos muito macambúzios, eu estou muito macambúzio também. Sinto, pela primeira vez na vida, que estou a precisar de uma sacudidela e que não vai ser aqui…
Porquê?
Portugal não tem capacidade de aprender com os erros cometidos. Repetimos os mesmos erros. Umas vezes por burrice, outras por desonestidade pura e simples, oportunidade de negócio, etc. Quase desejava que nos fechassem a torneira dos dinheiros europeus, que fôssemos obrigados a viver com aquilo que produzimos, com a riqueza que produzimos, para que os portugueses aprendessem.
Já teve esperança em Portugal?
A última vez foi quando entrámos para a Europa. Na altura, o Hernâni Lopes, que era ministro das Finanças, disse, "acabou-se o fado". E, de facto não se acabou, os portugueses reagiram exactamente ao contrário! Agora toda a gente fala de crise, eu acho que ninguém aprendeu coisa nenhuma com a crise, nada, zero! Toda a gente exige tudo do Estado e da sociedade e pouco está disposta a dar. Um dos exemplos que eu costumo dar, até o usei num dos meus últimos textos no Expresso, é as fundações. Porque nós devemos ser o único país do mundo onde uma pessoa cria uma fundação e em lugar de ter um património pessoal que põe ao serviço da sociedade, começa por ir pedir ao Estado que lhe dê um favor. Uma sede, ou isto, ou aquilo…
Uma sede em frente ao rio, de preferência...
Um espacinho à beira-rio, como a Fundação Champalimaud, ou a Casa dos Bicos, como a Fundação Saramago, ou o CCB, como a Fundação Berardo. Nós não temos noção de que o País se constrói com o esforço de todos, achamos que há uma entidade mítica chamada Estado cuja obrigação é distribuir tudo a toda a gente que se colocar numa posição clientelar. Quem não se colocar numa posição clientelar é o otário que paga 42% de IRS e não recebe nada em troca. Nós temos um problema de elites, de facto. E isso vem de cima para baixo e acaba por desaguar nos cafés. Vou-lhe dar um exemplo e espero que ele não se zangue comigo, se se zangar, paciência. Um dos últimos grandes políticos em que eu depositei imensas esperanças foi no António Vitorino. E o que é que ele fez em troca do poder político que tinha? Nada. Na primeira oportunidade foi-se embora, tratou de ganhar dinheiro. É isso que fazem as nossas elites todas, nós não temos um espírito de serviço público, nem mesmo das pessoas que resolveram ir para a política!
Já disse que as pessoas estão demasiado expostas e se cansam. Não pode ser por causa disso?
Estão. Mas também se expõem. Grande parte de políticos que prometiam tudo saíram, e estão todos em lugares públicos, em administrações de bancos, em coisas ligadas ao Estado, ou refugiados em escritórios de advocacia a dar pareceres para o Estado, a inter-mediar contratos, ganhando balúrdios de dinheiro. E as pessoas pensam: "Mas qual é o exemplo?"
A justiça também tem aí um papel, porque não há sanção, por exemplo, de casos de corrupção...
Não há nada em Portugal que funcione tão mal como a justiça. De tal maneira que eu, hoje em dia, pode ser o Freeport, pode ser qualquer coisa, leio "fulano é suspeito de não sei quê" e aquilo para mim vale zero. Não sei se é um cambalacho negociado entre alguém da PJ e um amigo jornalista num almoço, se é uma coisa fabricada pelo inimigo, se é fonte anónima que mandou isto para o Ministério Público e o MP resolveu pôr cá fora, se, de facto, as suspeitas são fundamentadas. Temos centenas, milhares de suspeitos e zero condenações. Toda a gente pode ser suspeito, é julgado na praça pública, queimado em lume lento, e no final, acontece o que vai acontecer com o Sócrates: se é arguido, foi este tempo todo à espera; se não é arguido e é arquivado, ninguém vai acreditar que está inocente, vão dizer que foi pressões políticas. E isso é o pior que pode haver. Quando as pessoas perdem a confiança na justiça, perderam o último bastião de confiança que podem ter.
Quem é que devia controlar a justiça? Os media?
Os jornais deviam, em certa medida. Mas quem devia controlar a justiça, primeiro que tudo, era o Presidente da República. Devia sair da sua posição de farol de Alexandria, ali, majestático, e começar a dar uns murros na mesa.
Pelos vistos mantém a sua irritação com Cavaco Silva.
Não, não é uma irritação com o Presidente da República. Eu acho que ele devia intervir.
Ele era um dos seus ódios de estimação quando era primeiro-ministro.
Sim…
Mudou alguma coisa agora este seu novo papel?
O professor Cavaco Silva não tem estatura para ser Presidente da República. Não tem curriculum político para isso, não tem dimensão de estadista…
O que acha das suas recentes intervenções?
Os recados é um bocadinho na sequência do que fez o Jorge Sampaio. É uma prática que já se instalou, que eles chamam magistratura de influência, soprar coisas pela frecha das portas. Instalou-se a ideia de que os poderes do Presidente não vão além disso. Agora, também depende da pessoa. Uma coisa é um recado mandado pelo Mário Soares, outra é mandado pelo Cavaco Silva. A diferença é de dimensão. Não acho que o Cavaco seja mau Presidente, acho é que é uma pessoa limitada. Não espero muito dali, não espero que comande nenhuma regeneração do sistema. Ele tem tentado dizer algumas coisas, cuidado com as obras públicas, com o negócio da PT com a TVI, etc. Mas é muito devagarinho, ninguém o ouve, ninguém o escuta.
Pelos vistos o Governo escuta-o, parou com o negócio da PT depois de ter falado no assunto.
Não foi só por causa do Presidente da República, quando ele falou já havia 48 horas de imprensa aos gritos. O que levou o Sócrates a recuar foi a noção de que era uma medida que sairia cara, três meses antes das eleições. Era quase um tiro no pé.
Vê o jornal da Manuela Moura Guedes à sexta-feira?
Às vezes sim, outras não. A maior parte das vezes não vejo. Vejo muito pouca televisão.
E gosta?
Não é um jornal que eu faria. Não digo mais nada.
Quando saiu da RTP estava zangado com José Eduardo Moniz. Disse que ele estava lá para se servir e o preço que tinha que pagar por isso era servir o Governo. Será que ele agora está na TVI para se servir e o preço que tem que pagar por isso é fazer oposição?
Não acho isso de maneira nenhuma. Tenho muita admiração pelo Zé Eduardo como profissional. Ele mudou muito desde a RTP e por isso é que eu estou na TVI. Ele foi falar comigo e reconheceu que tinha cometido erros de avaliação pessoal sobre mim. Parece que é público que a Prisa gostaria que a TVI tivesse uma inclinação pró-Governo. Portanto, mais fácil para ele seria seguir as intenções do patrão. E não o faz. Não sei se há mais algum órgão de informação em Portugal que se possa gabar do mesmo, se há mais algum director que possa dizer "eu não obedeço à orientação editorial que a minha administração queria".
Acha que o objectivo do negócio era calar o Moniz e a Manuela Moura Guedes?
Acho difícil que fosse tirar de lá o Moniz porque toda a gente sabe que ele é o conteúdo da TVI. Se a PT ia dar 150 milhões por 30% da TVI e à cabeça queria que saísse o Moniz, era um suicídio.
Mas ele queria sair, para o Benfica…
O futebol tem razões que a razão desconhece.
Se fosse benfiquista, votava nele?
Sem dúvida. Ele é muitíssimo mais competente do que os últimos cinco presidentes do Benfica todos juntos. Como portista, estou radiante que ele não tenha ido.
Viveu o processo PT-TVI lá dentro?
Estava lá, na TVI, no dia do clímax. Se as coisas foram tão óbvias como consta, é um sinal de desespero de Sócrates. Está a perder o pé e não se contém, funciona em fúria e não em reflexão.
Porque acha que isso acontece?
O Sócrates programou o seu mandato para três anos em que reduzia o défice orçamental, tentava fazer as reformas mais difíceis, e depois tudo seriam rosas. E, entretanto, rebentou-lhe a crise e ele perdeu a segurança. E já não quis pensar para diante, já não quis pensar a três anos. Inclusivamente, destruiu toda a obra de contenção do défice dos anos anteriores assim do pé para a mão.
Faz alguma aposta para as eleições?
Não.
O que acha da perspectiva de ter Manuela Ferreira Leite à frente do Governo?
Eu acho que ela não chega lá…
Não? Então já está a fazer apostas!
Posso apostar que o Sócrates ganha, por quanto não sei…
Vai votar?
Vou.
Votou agora nas europeias?
Sim. Vim de propósito do Brasil para votar.
O que fez o PS perder as europeias, a crise, o desemprego, o caso Freeport, as corporações?
O pior de tudo foi a crise. O combate às corporações já se sabia que ia ser violento e foi a coisa melhor que este Governo resolveu fazer. Depois infelizmente recuou. Em toda a linha no Ministério da Educação. Hoje em dia essa ques-tão da avaliação está morta e enterrada, disfarçada de despachos e de adiamentos...
E porque é que recuou?
Porque é muito difícil derrotar o peso das corporações em Portugal.
Portugal é mesmo ingovernável?
Está quase a ser. Salazar organizou isto como um Estado corporativo e isso ficou até hoje. Pode ser governável, satisfazendo as corporações todas. Mas isso, a prazo, é a morte do País. Porque não tem capacidade nem recursos para sustentar um Estado que não existe. Não é uma questão de haver mais Estado ou menos Estado, ou onde deve haver Estado. É uma questão de clientela do Estado.
Não vai ter saudade dos problemas que, no fundo, o espicaçam?
Se eu me puser a andar daqui, a ideia é ter outra visão, uma coisa nova que não seja igual todos os dias, quase claustrofóbica, sufocante. Pelo menos é a minha esperança.
Tags: Artes, Livros
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19 Comentários
13 Jul 2009, às 18:03 - Portugal - Lisboa
Benaventurados sejam os que, por sorte ou azar da vida, teem hipoteses de escolha. Mais de 50% dos portugueses desejam um TGV, ou uma carroça, que os leve deste pantano de aguas sujas e paradas. Mais não digo; MST já fez as ondas todas.
06 Jul 2009, às 23:02 - Portugal
Todos tão admirados, por o MST ir para o Brasil, é mesmo de gente que já se esqueceu dos caminhos inviesados do amor. MST está apaixonado por Maitê Proença, com quem vive uma paixão assolapada, o Brasil é o pais do amor. Lembram-se da Canção " sempre que o amor me chamar...." Lena D'água.
06 Jul 2009, às 22:26 - Portugal - Coimbra
Este cavalheiro pode ir até para a Cochinchina que não interessa nada. O Brasil tem muita gente boa, talvez se vá arrepender... e tenha que voltar a mudar de pátria. Talvez o embuste não pegue tão bem nos brasis e a frontalidade seja capaz de dizer "o rei vai nu".
05 Jul 2009, às 20:55 - Portugal - Lisboa
Pois que vá! E já agora deixe-nos descansados. Boas caipirinhas!
05 Jul 2009, às 19:45 - Portugal - Castelo Branco
Gostei da entrevista. Tem tópicos bastante interessantes, com declarações bastante elucidativas. Menos bem na fuga para terras de Vera Cruz. Espero que os motivos sejam outros, e não a falta de esperança em Portugal, e nos jovens Portugueses.
jmrcl
05 Jul 2009, às 19:38 - Portugal - Aveiro
Fazes cá uma falta como a fome...e/ou como uma viola num enterro.Tchauzinho,Inté...
jalonso
05 Jul 2009, às 19:32 - Portugal
Contribuo para que vá, mas não volte! Mas no Brasil que fique em zona bem selvagem, onde não haja os "media". Quanto é preciso?
domingosmccorreia
05 Jul 2009, às 18:00 - Portugal - Lisboa
Miguel não vá para o Brasil, lá será sempre um exilado por muito que goste do país.
Frankar
05 Jul 2009, às 16:41 - Portugal - Lisboa
Aprecio O MST pelo seu estilo, mas nem sempre estou de acordo com algumas posições dele. Quanto à sua vontade de ir para o Brasil, como alternativa de vida em Portugal não é o único, segue as pisadas, embora menos radical. da nossa pianista Maria João Pires. Este país é um convite permanente a essa opção. As pessoas começam a ficar fartas desta bagunça permanente que parece não ter fim à vista.
Zeferino Miguel Rodrigues
05 Jul 2009, às 16:38 - Portugal - Lisboa
Caro Miguel Sousa Tavares Tenha uma boa viagem e fique lá muitos e muitos anos, porque Portugal precisa de soluções e não de Velhos do Restelo.
GilFonseca
05 Jul 2009, às 15:30 - Portugal - Viseu
O que é uma pena é que o Miguel Sousa Tavares tenha alinhado na cretinice da cruzada anti-professor do governo, sem no fundo perceber nada do que se passa lá dentro. Da mesma forma, para escrever romances «históricos» é preciso conhecer a História. E não digo mais nada.
pincelim@gmail.com
05 Jul 2009, às 14:01 - Portugal
Há a ética intrínseca e a ética de circunstância. A primeira, é a que eu prefiro e aquela que confere ao indivíduo a verdadeira independência que lhe permite não fazer "fretes" a ninguém e agir segundo a sua própria consciência. Reconheço no MST essa invulgar virtude. Tenho 73 anos e apraz-me registar isso num escritor e jornalista em Portugal e não no Brazil.
Limao
05 Jul 2009, às 13:37 - Portugal - Lisboa
Aiaiai, pensei eu, outro?!.. Estas nossas elites, desistentes e negativistas, de barriga cheia!... Mas não, MST teve apenas azar com a revelação de MJPires ne véspera e não deve ter apreciado sequer a coincidência. As razões dele parecem ser bem mais respeitáveis porque, mais do que fugir de negócios mal orientados, parece apenas fugir de si próprio, aqui.
rouxinoldebernardim
05 Jul 2009, às 13:28 - Portugal - Porto
E depois como será? A Manuela Moura Guedes quem irá arranjar para o substituír? O Vasco Pulido Valente está meio senil... Será que vai dar videoconferências lá do Brasil? Será que espera pelo efeito Saramago?! Casar com uma brasileira, depois lançar umas farpas de vitimização lá do Brasil, dizer que foi perseguido e... está na forja um novo NOBEL!... www.rouxinoldebernardim.b
aaaa
05 Jul 2009, às 12:57 - Portugal - Porto
Mais um que não faz nada cá dentro e vai para o Brasil. Vão todos e não voltem.
05 Jul 2009, às 12:23 - Portugal - Aveiro
Fazes cá uma falta como a fome,ou como uma viola num enterro.Como diz o brasileiro das novelas...Inté!
amaro
05 Jul 2009, às 11:03 - Portugal - Lisboa
Eh pá, não vais! E depois como é que nos divertimos? A Maria João Pires, O Manel do bacalhau, o Joaquim da Padaria, podem ir, mas tu, nunca. Vamos circular uma petição na NET... Miguel FICA...
vguerra
05 Jul 2009, às 10:07 - Portugal - Lisboa
O "intelectual" "opinion-maker " dá à sola ,depois de nos ungir com o seu "pensamento".Todos iguais..
05 Jul 2009, às 09:50 - Portugal - Aveiro
Boa viagem...
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