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Visita guiada

Vauvenargues: a última morada de Picasso

por J. MIGUEL SARDO, Vauvenargues  

A mais secreta das casas do pintor espanhol abriu as portas ao público, no Sul de França. Ao lado da última musa, Picasso expõe-se pela primeira vez, como simples mortal, no seu derradeiro refúgio.

Na aldeia de Vauvenargues, nem o nome de uma rua, nem uma placa nem mesmo uma pedra tumular recordam que um dos pintores mais importantes do século XX está sepultado nesta pequena localidade da Provença.

À entrada de um palácio medieval, dominado por três pinheiros retorcidos e pela silhueta feminina da montanha Santa Vitória, só um cartaz escrito à mão faz referência ao célebre proprietário, mas para dissuadir os admiradores: "O palácio não está aberto a visitas, não insistam, o museu é em Paris."

O isolamento e a austeridade que levaram Pablo Picasso a transformar o palácio de Vauvenargues na sua residência principal há 50 anos foram durante décadas o único monumento à memória do pintor, enterrado nos jardins. De 1959 a 1962, o palácio foi refúgio de um artista de 80 anos, corroído pela nostalgia de Espanha e apaixonado tanto pela última musa e mulher, Jacqueline, como pela paisagem imortalizada nos quadros de um dos inspiradores do cubismo, o pintor impressionista Cézanne. Até há uma semana, apenas algumas dezenas de quadros de Picasso, dispersos por galerias e museus de todo o mundo, como Nu sob Um Pinheiro, Buffet Henrique II com o Cão e a Poltrona ou os retratos de Jacqueline, deixavam entrever o capítulo intimista da vida do pintor marcado por três cores dominantes: o verde das paisagens de Vauvenargues e o vermelho e amarelo da bandeira da terra de adopção, a Catalunha.

Até ao final de Setembro, as paredes brancas carcomidas pelo tempo, os espaços amplos preenchidos por estátuas de bronze e decorados com frescos do artista, os móveis e objectos que lhe serviram de modelo, e os jardins que albergam a sepultura substituem todos os quadros do pintor para contar uma biografia até hoje não autorizada. Pela primeira e única vez, a filha do casal, Christine Hutin, partilha o espaço com grupos reduzidos. A visita está limitada a 40 mil pessoas durante quatro meses. Uma forma de não perturbar as memórias do local, onde o ateliê do artista se mantém intocado desde a sua morte.

No início dos anos 60, Picasso troca Vauvenargues por Mougins, onde irá passar os últimos 13 anos de vida, mas cujo maire vai proibir a sua última vontade de ser sepultado na propriedade. Um dia após a morte, em 8 de Fevereiro de 1973, aos 92 anos, o corpo de Picasso regressa a Vauvenargues. Jean, hoje com 80 anos, recorda: "Lembro-me do dia em que foi sepultado no palácio, era Primavera e nevava, algo raríssimo naquela altura do ano."

No pátio, uma estátua de bronze, "a mulher da oferenda", assinala o local onde Picasso e Jacqueline, que se suicidou 13 anos depois, estão sepultados. A obra foi encomendada pelo Governo republicano espanhol para a Exposição Universal de Paris, em 1937, em plena guerra civil. Morto dois anos antes do fim da ditadura, Picasso repousa em casa, numa paisagem de Cézanne, num palácio do exílio que tem a forma de uma obra para sempre inacabada, um segredo de família que irá regressar ao silêncio no final de Setembro.


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