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por EURICO DE BARROS
João Bénard da Costa morreu ontem em Lisboa, aos 74 anos, vítima de cancro. O director da Cinemateca foi também professor, dirigente cineclubista, co-fundador e director da revista 'O Tempo e o Modo', cronista e autor de ensaios, catálogos e livros sobre filosofia, pedagogia e história do cinema.
Hoje, a Cinemateca Portuguesa tem só uma sessão. Às 21.30 é exibido Johnny Guitar, de Nicholas Ray, o filme da vida de João Bénard da Costa, ao qual deu "casa e pucarinho" durante mais de 40 anos, como escreveu em Os Filmes da Minha Vida. Os Meus Filmes da Vida. Com esta sessão solitária, a Cinemateca homenageia a memória daquele que foi o seu subdirector entre 1980 e 1991, e director a partir deste ano (o terceiro, depois de Félix Ribeiro e Luís de Pina), e que morreu ontem, em Lisboa, com 74 anos.
Desde Janeiro último que, por motivos de saúde, Bénard da Costa foi substituído na direcção da Cinemateca pelo subdirector, Pedro Mexia. O seu funeral sai hoje, às 14.00, da Igreja de São Sebastião para o Cemitério dos Olivais, após ser celebrada missa.
Poucos, pouquíssimos em Portugal, foram tão apaixonados pelo cinema, tanto, tão bem, tão pessoal e apaixonadamente escreveram sobre ele (mesmo que não partilhássemos a sua opinião, ou sentíssemos o peso excessivo da sua influência), tanto fizeram pela transmissão dessa paixão, tão ampla e entusiasmadamente o deram a ver e souberam mostrar e explicar, como Bénard da Costa, que encharcava os seus textos sobre cinema numa vasta cultura literária, artística, musical e histórica. Fossem folhas-de-sala da Cinemateca, entradas de catálogos de ciclos desta ou da Gulbenkian, crónicas de imprensa, monografias ou livros.
Intelectual e "católico progressista", professor, co-fundador da revista O Tempo e o Modo em 1963, candidato pela CDE às eleições de 1969 e fundador do GIS, Bénard apanhou o bichinho do cinema quando viu o primeiro filme, Pinóquio, de Walt Disney, no Tivoli, em 1940. Começou então a coleccionar informações sobre actores e actrizes, a ir ver filmes pelo seu pé e a apaixonar- -se por estrelas como Jennifer Jones.
A sua cinefilia só deitou corpo a sério quando em 1969 se tornou responsável do Sector de Cinema do Serviço de Belas - Artes da Fundação Calouste Gulbenkian. E organizou, antes e após o 25 de Abril, ciclos históricos como o dedicado a Roberto Rossellini em 1973 (a projecção de Roma, Cidade Aberta, terminou com uma ovação de dez minutos e berros entusiásticos de "Abaixo o fascismo!" e "Viva a liberdade!", acordando Rossellini da soneca que fazia numa poltrona, já que não gostava de rever os seus filmes). Ou ainda a John Ford, Alfred Hitchcock, ao musical e à ficção científica, que esgotavam as lotações do Grande Auditório, e também da Cinemateca.
Como o próprio revelou numa entrevista: "O cinema, até entrar para a Gulbenkian, não tem um lugar muito importante na minha vida. É uma coisa de que gosto muito, como de literatura, pintura ou música, sobre a qual escrevo ocasionalmente, mas não é exclusiva - até é relativamente marginal nos anos 60, uma música ao longe."
Em 1980, convidado por Vasco Pulido Valente, então secretário de Estado da Cultura, Bénard entrou como subdirector para a Cinemateca, com o director Luís de Pina, a quem sucedeu, à morte deste, em 1991. É sob a sua direcção - na qual foi excepcionalmente reconduzido para lá da idade-limite, em 2005, pela então ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, que repetiu o gesto um ano depois - que a instituição consolidou a sua dimensão europeia, foi renovada e ampliada, e se criou o Arquivo Nacional da Imagem em Movimento (ANIM).
Da vigência na Cinemateca, que construiu à sua imagem, ficam também, contadas à boca pequena, histórias de autoritarismo e até de alguma prepotência. Estas contrariam o unanimismo em redor da sua figura e obra, expresso, por exemplo, no abaixo-assinado público e nas muitas opiniões publicadas quando do citado prolongamento extraordinário da sua presença na direcção da instituição .
Fiel à sua experiência de professor liceal e no Conservatório, e ao seu espírito pedagógico, Bénard da Costa sempre procurou, e em especial no que ao cinema diz respeito, fazer "uma certa educação de gosto. Não me repugna nada esse dirigismo", disse. Porque sempre quis convencer "quem eu quero que goste tanto como eu gosto", e,"se possível, goste como eu gosto".
No cinema, Bénard entrou em filmes, quase todos de Manoel de Oliveira, mas também de César Monteiro ou Raoul Ruiz, sempre com o nome artístico de Duarte de Almeida - o decepado da batalha de Toro. Uma forma humorística de dizer que tentava, desajeitadamente, fazer o seu melhor.
Tags: Artes, Cinema
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