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Símbolos portugueses ao serviço de uma nova pop

por LUÍS FILIPE RODRIGUES  

'Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco', primeiro disco de Os Golpes, já está nas lojas. A banda reclama legado de bandas como Heróis do Mar ou Sétima Legião, conjugando uma linguagem anglo-saxónica, o pop/rock, com uma estética vincadamente portuguesa.

A edição de IV, quarto álbum de Tiago Guillul, há perto de um ano, foi o primeiro sinal a chegar mais longe. Havia uma nova geração com vontade de cantar o rock em português, de olhos postos nos anos 80 e com vontade de fazer esquecer uma década de 90 pautada pela adopção do inglês por muitas bandas. "O fenómeno é anterior à edição desse disco, mas era uma coisa mais subterrânea", explica Manuel Fúria, vocalista de Os Golpes e responsável pela editora Amor Fúria. Agora, passado um ano, chega este Cruz Vermelha Sobre Fundo Branco, a estreia em disco da sua banda, e a confirmação de uma vontade de refundar o panorama pop/rock português.

Olhando para a capa é difícil não pensar no primeiro álbum dos Heróis do Mar, onde se via também a Cruz de Cristo. E, tal como ocorreu aos autores de Paixão, também foram acusados de nacionalismo. "Isso não faz sentido", diz Fúria, taxativo. "Estas coisas têm que ser colocadas num certo contexto. Não há aqui qualquer programa político. Isto é só música pop, é o que nós fazemos, e não faz parte de um plano organizado para ocupar o governo e mudar o país", ironiza.

"No fundo queremos resgatar os símbolos e restituir a sua ideia original. Estas imagens hoje podem ter uma conotação negativa, mas nem sempre foi assim", refere o baterista Nuno. Pedro da Rosa, o guitarrista, concorda: "Hoje em dia há muita gente a fazer uma leitura errada da Cruz de Cristo. Associam-na ao Estado Novo, quando é algo centenário. Chegou a ser bandeira de Portugal e a representar os Descobrimentos. É o símbolo da equipa Os Belenenses. Foi também resgatada pelos Heróis do Mar. No fundo é uma coisa nossa, do nosso país e da nossa gente".

Esta vontade de recuperar os símbolos portugueses não é uma novidade para estes músicos. Quando ainda eram Os 400 Golpes, como o filme de Truffaut, já se viam caravelas nos cartazes dos seus concertos. "Havia essa vontade, mas era apenas uma de muitas ideias. Estávamos a descobrir a nossa identidade", explica Manuel Fúria. Essa busca conduziu ao fim da primeira encarnação da banda. Caíram os "400" e mudaram os bateristas. "Não queríamos ser a banda que tinha o nome daquele filme. Até porque as canções que estávamos a fazer já não reflectiam tanto esse universo", lembra o vocalista.

E com o nome mudou também a imagem. "Desapareceram o fato, o colete e a gravata, que tinham mais em comum com o brit pop do que com a pop que queríamos", diz Pedro da Rosa. Depois, Jorge Cruz, que produziu este primeiro disco, ajudou a limar algumas arestas. "Ele foi muito importante para estruturar a música pop que Os Golpes estão a fazer agora", concorda o guitarrista. E que música é essa? Pop/rock independente onde se cantam pequenas histórias de Portugal, com os anos 80 na memória, e os postos no futuro.

Tags: Artesmúsica


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