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por MARIA JOÃO CAETANO
"A política tem a ver com o tudo o que faço na minha vida", diz a fadista Aldina Duarte, que actua hoje, às 21.30, na Culturgest, em Lisboa. Liberdade é a palavra que mais preza.
Todos os dias, a fadista Aldina Duarte coloca um poema no seu blogue (www.aldinaduarte.blogspot.com). Maria Teresa Horta e Ondjaki, David Mourão Ferreira e Pessoa, William Blake e Cesare Pavese. Vai escolhendo textos que a toquem, que tenham a ver com o seu sentimento naquele dia, que lhe apeteça partilhar. "Sou uma beata da poesia", diz. "Não passo um dia sem ler um poema, um que seja. É como lavar os dentes."
Aldina também escreve. Muitos fados, alguns poemas. São coisas diferentes. "Escrevo sempre a pensar numa música. Às vezes escrevo umas coisas sem métrica, pela urgência de falar de um tema, mas os meus poemas são muito piores do que as minhas letras", reconhece. As letras são tão boas que acabam por ser cantadas por outros fadistas. E foi com elas que recebeu um Prémio Amália. "Mas o meu maior compromisso é como intérprete, não é como letrista", faz questão de deixar claro.
Tal como a poesia, o fado é presença permanente. Em casa, no estúdio, na casa de fados Senhor Vinho, onde actua há 13 anos, de terça a sábado. "Às vezes estou um bocadinho cansada, há uma certa rotina, mas este é o meu trabalho e gosto muito dele." É ali, perante um público composto por portugueses e estrangeiros, novos e velhos, gente que gosta de a ouvir e outros que nem sequer sabem o seu nome, que se faz fadista e vai experimentando os temas novos. "É muito duro, nos fados tradicionais quase não ensaiamos, expomo-nos muito. Às vezes corre mal mas esse tram- bolhão também faz parte. É assim que os fados crescem. E é isso que vai dando organicidade ao meu canto."
Depois de ter tido muitos empregos, Aldina Duarte encontrou-se no fado e já consegue viver só disto. Quando foi dispensada pela EMI, criou a sua própria editora, foi para a frente e não se arrepende. "Fiz exactamente o que queria e com quem queria, num momento em que ninguém queria isto. Arrisquei e dei-me bem." Sente que está a viver o melhor momento da sua carreira, mas não se ilude: "No dia em que pensar que tenho de cantar isto ou cantar ali para poder pagar a renda, arranjo logo outro emprego. Prefiro fazer outra coisa qualquer a cantar por obrigação."
Liberdade é a palavra que mais preza. Foi com a mãe, a sua "grande mentora em termos de ética, de valores fundamentais", que aprendeu a ser assim - de esquerda, comprometida. "A política tem a ver com tudo o que faço na minha vida", diz. "Preocupam-me muito os pequenos poderes porque me fazem lembrar as baratas. Uma ou outra até parece fraca. Espezinhamo-la e pronto. Mas se um dia tivermos uma invasão de baratas a nossa sobrevivência está em cusa, invadem-nos a dispensa e não conseguimos comer. São estes pequenos poderes que alimentam os grandes poderes."
Tags: Artes, música
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