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por Maria João Caetano
No ano em que se comemoram os 35 anos de O Bando, o seu fundador e director, João Brites, recebeu prémio pelo espectáculo 'Saga - Ópera Extravagante'.
João Brites não é só um encenador. No teatro, imagina, junta palavras, constrói narrativas, cria espaços, explora emoções, dirige actores. Tenta ir mais além. E põe em cena espectáculos belos e tocantes. Foi o que aconteceu com Saga - Ópera Extravagante, estreado pel'O Bando no ano passado e que valeu a Brites o Prémio da Crítica, atribuído pela Associação Portuguesa de Críticos de Teatro (APCT).
O prémio não é só para si, mas para O Bando, diz ele. O prémio não é só para Saga mas para todo um percurso, diz a APCT. Foi há 35 anos que tudo começou. Vindo das artes plásticas, acabado de regressar a Portugal depois do exílio em Bruxelas, João Brites decidiu mudar de vida e dedicar-se ao teatro. "Quando fundei O Bando, vinha em ruptura com a pintura e a gravura, já não me revia muito naquele papel de eremita, afastado dos movimentos de massas. Gostava de ter uma relação mais especial com as outras pessoas - os públicos e os meus parceiros. E achava que a intervenção política e estética era importante", conta.
"Não vinha com uma estética definida", mas sabia que queria trabalhar com crianças e fazer itinerância - procurar as bases para vir a criar uma linguagem teatral que, "ainda que influenciada pelas experiências históricas", se fundasse "nesse encontro impossível entre tendências tão diferentes, de modernidade, de tradição, de inconformismo, de inquietação".
A inquietação que se seguiu à Revolução. "Foram momentos de excepção", recorda João Brites. "A história de o poder estar na rua, de tudo ser possível, é uma coisa extraordinária para um artista." Muitos dos sonhos acabaram por se esfumar com os anos, mas o inconformismo não se revela só em palavras de ordem. Aos 61 anos, Brites (e o colectivo O Bando, com sede em Vale de Barris, Palmela) continua a ter um dos discursos mais singulares das artes performativas em Portugal.
Porque o teatro não pode ser só "uma exposição de ideias, uma ilustração de conceitos", João Brites trabalha com sensações e procura emoções. "Para além da compreensão literal das coisas, da interpretação dos signos, que exista outra coisa que é inexplicável e que perdura na memória", defende. Cada espectáculo é como um concerto, um poema, uma obra de arte - muito mais do que teatro. Quem duvida está ainda a tempo de ir ver A Noite, a partir de Al Berto, até 5 de Abril, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.
Tags: Artes, Teatro
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