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por MARINA MARQUES
Com inauguração para as 22.00, com água-pé e castanhas de Trás-os-Montes, Graça Morais mostra os seus mais recentes trabalhos
Assim que se entra no número 2C da Rua da Academia das Ciências, em Lisboa, é-se transportado para o universo de Graça Morais. Uma cabra no meio do campo, a sépia, "sentada, à espera com todo o tempo do mundo", explica a pintora, dá início à mais recente exposição da pintora, que hoje se inaugura, às 22.00, na Galeria Ratton.
A escolha não foi feita ao acaso. "Uma cabra ou um rebanho é uma das imagens mais bonitas que vejo quando ando a passear", revela a artista. E representa ainda outra realidade que a artista coloca em evidência no conjunto dos 42 trabalhos da exposição, todos realizados este ano: "uma grande reflexão sobre o tempo longo e lento do campo", nas palavras da própria Graça Morais, "um universo contrário à cidade, ao tempo da cidade".
Na segunda sala, uma série de desenhos a carvão revela a metamorfose provocada pelo tempo, "tanto nas pessoas como nas batatas". A pintora explica o porquê desta metáfora: "Faço uma grande analogia entre as batatas, quando começam a grelar e as deitam fora, e as pessoas quando começam a envelhecer, e que aparentemente deixam de ser úteis. Mas tal como eu recupero as batatas, enrugadas e greladas - são as minhas naturezas vivas -, também as pessoas têm outra vida, podem ser 'usadas' de outra maneira".
Na terceira sala, destaque para um diário com sete desenhos, feitos no mesmo dia, "onde estão registados as horas e os minutos em que foram feitos", refere. E os textos, alerta, nada têm a ver com os desenhos. "São sentimentos muito rápidos do que sinto naquele momento, por vezes até com raiva", diz.
Apesar do carácter autobiográfico dos diários e de representarem uma grande exposição perante o público, Graça Morais deixa a promessa de um dia fazer uma mostra só com diários. "Acho que o artista tem a sorte de se poder exprimir livremente e ao mesmo tempo comunicar com as outras pessoas. Quando faço estes desenhos não os posso guardar em pastas, preciso de os mostrar, porque tenho imenso prazer em que haja muitas pessoas a vê-los, gostem ou não", afirma.
Enquanto a prometida exposição não chega, alguns desses diários podem ser vistos no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, de onde é natural. Esta ligação ao centro não a deixou pintar tanto como gostaria durante o último ano, mas a artista considera que "está a ser muito compensadora". "É a grande oportunidade que me deram de ser útil à sociedade e de dar àquela região aquilo que dela recebi em termos de valores, como pessoa", diz.
A exposição pode ser visitada até 31 de Janeiro, de segunda a sexta, das 10.00 às 13.00 e das 15.00 às 19.30.
Tags: Artes
Fotografia © DN - Gonçalo Villaverde
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