Publicidade
Diário de Notícias Diário de Notícias


Passeio Livre

Peões declaram guerra do autocolante

por FERNANDA CÂNCIO  

Peões declaram guerra do autocolante

Conheceram-se na Net e foi na Net que criaram um movimento pela libertação dos passeios públicos. A arma é a consciencialização dos automobilistas através de um meio pacífico e inofensivo: um autocolante que diz "Pense nos peões ao estacionar"

"Ontem fui ao cinema no Fórum Lisboa e vi uma série de autocolantes em carros mal estacionados. A forma como isto se espalhou foi extraordinária". Bernardino Aranda, 32 anos, economista e funcionário da Câmara de Lisboa, é um dos membros do grupo inicial que, em conversas na net, discutiu durante meses os atentados aos direitos dos peões até que alguém sugeriu uma forma de tornar visível o protesto: um autocolante para colocar em veículos colocados sobre o passeio ou sobre passadeiras.

Criaram um blogue e um endereço de mail para o qual as pessoas podem pedir autocolantes, e começaram a receber pedidos. Uns meses e 15 mil autocolantes depois do lançamento do blogue Passeio Livre (passeiolivre.blogspot.com), parece claro que a iniciativa foi bem sucedida, até pelo efeito mediático que vai conseguindo. O grupo está já a pedir ideias para um novo autocolante. "Uma das coisas fantásticas disto é a quantidade de pessoas que nos contactaram a dizer que antes se sentiam sozinhas nesta luta. Há um bloguer desde 2005 a tirar fotografias a carros mal estacionados e uma senhora que manda cartas para todo o lado por causa disso e dos cocós dos cães e que um dia se passou e começou a colocar palitos com a bandeira de Portugal nos ditos." Tiago Carvalho, 28 anos, bolseiro de investigação no Instituto Superior Técnico, outro dos elementos do núcleo duro, não contém o riso. "É genial, não é?"

Claro que nem toda a gente reage bem à ideia de ter os peões a passar à ofensiva e muito menos a encontrar um autocolante amarelo e preto (a condizer com os bloqueadores) com os dizeres "Não pense só no seu umbigo/pense nos peões ao estacionar" pespegado no vidro do lado do condutor. Os protestos também vão parar ao blogue e alguns chegam à ameaça. "O sentimento de impunidade está banalizado, e as pessoas sentem o colar do autocolante como um ataque pessoal. Chegam a dizer que estamos a combater uma ilegalidade com outra". Tiago encolhe os ombros. "Uma das coisas que queremos deixar claro com este movimento (ou iniciativa, ou o que se lhe queira chamar) é que não cabe ao peão arranjar solução para o automobilista que quer um lugar para o veículo. A reacção mais comum nas pessoas que estacionam em cima do passeio e são interpeladas é perguntar onde queremos que elas estacionem, como se fosse obrigação dos outros encontrar-lhes uma solução. Não é. Essa responsabilidade não é dos peões. E não pode haver soluções à custa dos peões e da legalidade". Mário Negreiros, 45 anos, acrescenta: "A PSP já disse que não é ilícito colocar um autocolante no carro. Para ser ilícito seria preciso que o autocolante destruísse o vidro e houvesse dolo, ou seja, intenção de destruir." Mário, que se juntou ao grupo quando o blogue já estava lançado, compensa o atraso com combatividade. "As pessoas fazem do carro a extensão do seu ego e sentem como uma agressão um papelinho de 10 por 15 centímetros colado na porta. E quanto mais falam do autocolante como abuso e invasão mais me convenço do acerto de o usar como meio dissuasor. Porque não há nada que possa ser dito em relação ao autocolante que não possa ser dito sobre carros em cima do passeio. Quanto aos que pretendem que queremos substituir a polícia e fazer justiça pelas próprias mãos, bom: justiça pelas próprias mãos seria partir o carro todo, não? Há muita gente que se sente quotidianamente agredida pelo estacionamento selvagem. Aquele autocolante expressa a nossa indignação e é uma reacção muito branda à violência que os donos dos automóveis estão a fazer aos outros, muitas vezes sem se dar conta disso, porque nunca pararam para pensar, porque está muito arreigado nos hábitos." Negreiros vive em Oeiras e já reparou que desde que usa o autocolante pelo menos três automóveis que costumavam estar sempre estacionados em cima do passeio ao pé da sua casa "passaram a estacionar no parque gratuito que sempre existiu, a cerca de 100 metros". Só por essa mudança, diz, "já valeu a pena". Jornalista em desactivação ("Estou a tentar deixar de ser") e produtor de vinho, foi alertado para a existência do blogue pela mulher, também jornalista. "Ela disse que era a minha cara, e claro que acertou. Sempre estive neste movimento e não sabia. Tenho uma filha de quatro anos que só há pouco deixou de andar de carrinho e nunca consegui sair de casa com ela sem ter de ir para o meio da estrada. E quando tinha uma coluna semanal no Jornal de Negócios escrevia sempre um post scriptum sobre isso." Negreiros começou a enviar as centenas de fotos que costumava tirar para interpelar a Câmara e a polícia ("Sem qualquer efeito") para o blogue e foi convidado para colaborar, juntando-se ao grupo inicial - Tiago Carvalho, Bernardino Aranda e António Cruz.

Cruz, 25 anos, participou da congeminação da Holanda, onde está a fazer um MBA em, traduzindo à letra, "gestão da mudança". Um bom título para aquilo que o movimento (?) gostaria que sucedesse nas estruturas que regem o estacionamento em Lisboa - e no resto do país. "A coisa começou assim um bocado inusitadamente. Algumas pessoas já tinham blogues relacionados com o tema, como o "menos um carro", mas a ideia não era ser contra os carros, era lutar pelo passeio livre. Fomos discutindo o assunto e a dada altura criei o blogue na Holanda." A viver num país em que o recurso aos transportes públicos e à bicicleta é massificado, e onde "as pessoas nunca aceleram o passo nas passadeiras nem ninguém se atreve a apitar para as apressar", António tenta interpretar as diferenças. "Apesar de ser uma sociedade muito individualista, mais que a portuguesa, há um muito maior sentido do bem comum". Tiago Carvalho concorda. "Há nisto um carga de displicência e de indigência cívica. Para além, claro, do laxismo das autoridades. Mas não pode haver um polícia em cada esquina. Vejo o estacionamento abusivo como um espelho que reflecte muitas das características do portugalinho. Parece que só temos um olhar predatório para as grandes coisas e perdoamos estas incivilidades." Um exemplo é o espectáculo que vê todos os dias no Técnico. "É impressionante a quantidade de automóveis de alunos que enchem isto, parece um parque de estacionamento. Vêm cá muito alunos de outros países e acham isto uma selvajaria. Ainda por cima estamos no centro da cidade, num local muitíssimo bem servido de transportes. É incompreensível."

Tiago usa muito bicicleta, como outros dos elementos do movimento (caso de António Cruz). Ainda assim, é óbvio que há quem no movimento ande de automóvel. "É preciso perceber que nem todos os peões são automobilistas mas todos os automobilistas são peões", frisa Mário Negreiros. A luta, assim, é de todos - e toca a todos. Nenhum automobilista gosta, enquanto peão, de ser impedido de sair de casa por um carro estacionado à sua porta ou de ter de andar na faixa de rodagem porque não há passeio. Os custos do estacionamento selvagem, aliás, nunca foram contabilizados - nem em acidentes nem em stress nem nos danos que, como Benardino Aranda lembra, são causados à frágil calçada portuguesa (e no blogue sucedem-se as fotos para o provar) e que implicam muitos milhares de euros em reparações. Por outro lado é óbvio que restringir o estacionamento nos centros das cidades é uma das formas mais eficazes de dissuadir o uso intensivo do transporte individual, um dos objectivos recorrentemente invocados por todos os responsáveis políticos. Lutar por passeios livres é, assim, lutar pela cidade - na sua acepção mais nobre de civilidade e valores de cidadania. "Um acto de amor", como resume Tiago. "No fundo, é o que estamos a fazer, não é?" Por Lisboa, claro - mas por todos também.

Tags: Gente


ImprimirImprimirEnviar por EmailEnviar por Email
EstatísticasEstatísticasPartilharPartilhar



Comentar

Caracteres disponíveis: 750

Receber alerta de resposta Aparecer como Anónimo
  • Comentar

Nota: Os comentários deste site são publicados sem edição prévia e são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Consulte a Conduta do Utilizador, prevista nos Termos de Uso e Política de Privacidade. O DN reserva-se ao direito de apagar os comentários que não cumpram estas regras. Receber alerta de resposta - será enviado um alerta para o seu e-mail sempre que houver uma resposta ao seu comentário. Aparecer como anónimo - os dados (nome e-mail) são ocultados. Os comentários podem demorar alguns segundos para ficarem disponíveis no site.

Se tem conta, faça Login

Nome do utilizador

Password

Legenda

Utilizador RegistadoUtilizador Registado    Utilizador Não RegistadoUtilizador Não Registado




Siga-nos em
Especiais

Recuar
Avançar
PUBLICIDADE


RSS


PATROCÍNIO
sondagem

Inquérito DN

Quem tem mais culpas na má época do Sporting?

José Eduardo Bettencourt
Paulo Bento
Carlos Carvalhal
Pedro Barbosa
Sá Pinto
Os jogadores
Votar  Ver Resultados




Desporto

Todas as notícias

Todas as notícias

Portugal

Grande Entrevista

Grande Entrevista

Desporto

Inscreva-se

Inscreva-se

Cartaz

ESPECIAL ELVIS

ESPECIAL ELVIS




Diário de Notícias, 2009 © Todos os direitos reservados | Termos de Uso e Política de Privacidade | Ficha Técnica | Publicidade | Contactos