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por Eurico de Barros
Parece que o sabor literário da temporada cá pelo burgo (e não apenas) é o falecido chileno Roberto Bolaño, autor de um tijolão intitulado 2666. Já houve inclusivamente quem dissesse que o calhamaço de Bolaño é melhor do que o Ulisses de James Joyce, o que significa também que é ainda mais ilegível do que este. (Conhecem alguém que tenha mesmo lido o Ulisses de fio a pavio? Eu também não).
O intenso hype criado em redor de Roberto Bolaño em Espanha e nos EUA já tem o nome de bolañomania- os departamentos de marketing das editoras e os críticos literários e opinion makers que se entusiasmam em efeito de dominó, às vezes trabalham em conjunto sem o saberem. Pelas descrições já publicadas de 2666 (cujo "enredo" multiforme e movediço, aliás, parece desafiar qualquer descrição...), Bolaño era assim uma espécie de prodígio caótico e em jacto contínuo da imaginação literária, um homem que escrevia "sem rede e sem travões, que deitava tudo cá para fora", como descreveu o seu amigo e também escritor Rodrigo Fresán. E já está a ser pintado como um anti-Gabriel García Márquez, ou como a versão latino-americana de Thomas Pynchon.
2666 vai até ter, esta noite, honras de lançamento especial numa livraria de Lisboa, durante uma festa em que haverá leitura de excertos por nomes de vários sectores das artes, das letras e do jornalismo cultural. ( Para os interessados, será às 23.00, na Ler Devagar da LxFactory, com apresentação de Francisco José Viegas, da Quetzal, que edita a obra em Portugal ).
Confesso que desconfio muito destes prodígios da literatura - e das artes em geral - que são "descobertos" de vez em quando, imediata e acriticamente levados aos céus da excelência e da genialidade pelos pequenos e médios membros da intelligentsia e outros culturalistas, e que acabam por se transformar em incómodos fenómenos de intimidação cultural, como dizia o meu falecido e saudoso amigo, Pedro Bandeira Freire.
Já aqui estou a ouvir a inevitável frase: "Como? Ainda não leste 'o' Bolaño? Mas isso é incrível, é o livro do ano!" E parece que uma pessoa vira leproso cultural por não ter dado atenção ao "livro do ano" , e ido ler o que lhe apetecia e não o que "devia".
Pelo que tenho lido sobre ele, Roberto Bolaño era também um tipo do contra por vocação e sistema (já ganha pontos no meu departamento só pelo facto de ter sido um detractor "feroz" da detestável Isabel Allende). Por isso, acho que não se chatearia muito se eu me fizer também do contra e não comprar "o livro do ano" .
Talvez daqui a uns tempos, quando a bolañomania não for mais do que uma muito vaga recordação, e mais uns dois ou três autores de obras-primas "imperdíveis" tiverem entrado e saído de moda, eu vá dar uma espreitadela a 2666. Entretanto, vou lendo o que dele escreveram alguns raros dissidentes do entusiasmo geral, como o crítico americano Sam Sacks: "Um livro fisicamente mutilador, que é mais difícil de recomendar do que de ler."
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