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por JOÃO CÉU E SILVA
Entrevista: Vitorino Magalhães Godinho
É um dos mais reputados historiadores e conta no seu currículo com anos de exílio por oposição a Salazar. Especialista na época dos Descobrimentos, mostra-se amargo face à evolução da História nacional no último século. A sua visão do mundo espanta pela modernidade, tal como o uso neste ensaio de palavras como 'PlayStation' e de análises inesperadas pela sua actualidade
Vive-se um tempo em que se lêem mais romances históricos do que livros de História?
Essa questão já foi levantada em 1830 por Alfred de Vigny a propósito de um romance histórico francês e, ao fazer a distinção entre a verdade histórica e a verdade do romance histórico, fazia-o de um modo bastante lúcido: a História dá-nos a evolução geral da sociedade e a ficção apreende as personalidades. Um romance histórico pode ter episódios verdadeiros mas os outros são criações apesar de verosímeis.
Pertenceu a uma escola - a dos Annales - que estudou as massas para além dos heróis!
Tive o ensejo de colaborar numa fase decisiva mas eles próprios tiveram antecessores com essas preocupações. Falamos de Marc Bloch, até pelo seu heroísmo na guerra, mas o pai, Gustave Bloch, era um historiador da mesma envergadura. Os seus estudos sobre a República e o Império Romano são de uma densidade e valor interpretativo extraordinários porque mostram o diálogo entre o colectivo e o individual. E o Lucien Febvre até insistiu que o problema fundamental da História é o da relação entre personalidades e movimentos colectivos! Mas é claro que trouxeram um estudo sistemático das estruturas sociais e dos grandes públicos que acompanham as transformações com o estudo fundamental dos tempos históricos, um estudo hoje muito esquecido. Se formos ver temos actualmente uma economia política em que não há o tempo e como ele não existe os dirigentes estampam-se porque são incapazes de prever com uma semana de distância.
Nenhum historiador avisou para o que ia acontecer!
Mas nós estamos a viver uma crise prevista pelos historiadores e qualquer aprendiz de historiador sabia isso. No entanto, não houve um economista ou um Prémio Nobel dessa área a antecipar e a compreender o que se passava. Porquê? Porque não viram que o tempo individual e o dos grupos - o tempo da sociedade global - são diferentes.
Tirando o Fukuyama, que falou do fim da História, ninguém fez um aviso!
Também supunha que o Fukuyama é que tinha dito pela primeira vez que a História tinha acabado mas encontrei outro que disse 20 anos antes o mesmo. Mas não está em causa acabar a História, antes compreender como ela se processa e, em face do que se passa actualmente, saber perante o que estamos? Primeiro, pensou-se que nada. Depois, que havia umas manigâncias financeiras e que com intervenção policial e processos judiciais se resolvia o problema. Entretanto, já se desencadeara a crise financeira e foi preciso estar de olhos vendados para não se dar por ela. Mas, mesmo aí, pensou-se que não se iria transmitir à economia real e viu-se que não percebiam de economia porque a uma economia real só se opõe a imaginária! Não tem pé nem cabeça distinguir as finanças da economia porque são parte do processo económico e isso foi algo que os políticos ainda não perceberam porque acham que as podem comandar.
A classe política e económica vai aprender algo com esta crise mundial?
Temo que aprendam pouco porque não há um diagnóstico correcto. Já escrevi que os sinais demonstravam que a crise estava instalada há quatro anos e o diagnóstico feito supõe que o sistema funcionava e que só havia umas distorções que era preciso regular. Sabe-se que a economia não funciona em função do sistema judicial nem com a terapêutica da regulação. É um erro acreditar nisso tal como é o facto da política e da economia descarregarem sobre o sistema judicial o que lhes compete. Até porque o sistema judicial não tem tempo de fazer o que deve.
Tem uma perspectiva muito crítica da actual organização da sociedade.
Historicamente, a seguir à II Guerra Mundial, houve um conjunto de transformações e acções políticas que criaram as economias mistas que funcionaram muitíssimo bem e levantaram a Europa. Deram-lhe um nível de vida e uma capacidade que não existia, foram 30 anos gloriosos em que funcionou muitíssimo bem porque criou sistemas de saúde e de segurança social e houve possibilidade da humanidade se renovar. A partir de certa altura, a reacção de forças económicas oligárquicas, de grandes empresas e forças políticas operaram uma reviravolta - a era de Reagan e de Thatcher - com uma política oposta que destruiu o que se tinha feito.
E em Portugal aconteceu o mesmo?
Sim e os desvarios do 25 de Abril levaram à posição contrária, a de destruir tudo o que havia de melhor e até o que o 25 de Abril trouxe. Houve essa destruição progressiva e as pessoas não se apercebem do que se passa nos hospitais: um descalabro total. Tal como nos sistemas de ensino e económico, que não poderiam escapar no meio desta reviravolta. Além de que a revolução técnica que vem de 1975 para cá criou condições inteiramente novas na economia.
Não gosta de usar o conceito tecnologia…Gosto de usar tecnologia no sentido próprio! Technos mais logos, a ciência e o discurso lógico, ou seja, o pensamento científico da tecnologia. O que se passa é que quando há uma invenção técnica não estamos na tecnologia mas apenas quando há o pensar cientificamente dos fenómenos técnicos.
E a técnica não ajudou a evoluir o mundo nem sistematizou os sistemas económicos?
Não. Criou condições que têm em si a contradição. Houve uma série de invenções que se industrializaram - computadores e telemóveis - e que, entre as várias características, tem uma que é permitir a automatização do trabalho e redução de mão- de -obra. Além disso, adoptou-se o imperativo do crescimento e todos os anos os números têm de ser superiores mesmo sem se produzir em função de uma procura efectiva. Produz-se por si e o resultado é o mundo estar com os armazéns cheios; não se vende porque o que foi produzido não contava com a redução da procura e o progresso criou uma contradição: maior produção e menor procura. E por isso a crise que temos é financeira mas sobretudo de procura.
Porque o sistema capitalista não se pensa?
Creio que já não estamos no capitalismo. As pessoas apegam-se a nomes, mas a verdade é que tivemos um capitalismo no século XX que foi engolido por uma evolução que levou a um hipercapitalismo em que as empresas que vendiam para o mercado desapareceram e foram substituídas por grandes redes que conglomeram actividades múltiplas e fazem motores de aviões, perfumes e marroquinaria...
Qual será o futuro deste hipercapitalismo?
Este hipercapitalismo engasgou-se porque criou uma contradição insanável. Quando a Toyota despede 20 mil é porque criou um sistema produtivo que é absurdo e não corresponde às necessidades.
E também porque não houve regulação?
Não. Resulta da lógica que se estabeleceu. Se houvesse mercado as flutuações de preços e de quantidades regulavam-se mas quando se diz que o Estado vai regular o mercado está a dizer-se que desaparece o mercado porque o que caracteriza o mercado é ser auto-regulador. Se não é uma economia que é diferente! Esta economia foi levada à obsessão do crescimento e da inovação e resultou em armazéns cheios. Não é por acaso, é que os nossos inefáveis dirigentes políticos, cuja obtusidade é alarmante, dizem que "é preciso inovar" em vez de proporem uma indústria que não venha criar necessidades.
O que motivou o estrangulamento da procura?
O estrangulamento da procura resulta do excesso de produção e saturação de mercado e das pessoas.Acusa a classe política pela situação. Acha que a nossa classe política não está à altura?
Acho que a nossa classe política é mais do que lamentável. Os nossos políticos não têm ideias e não debatem. Assiste-se a qualquer sessão do Parlamento e verifica-se que há afirmações mas nunca as demonstram. Diz-se que o TGV é fundamental mas ninguém o justifica. Quando há uma crítica ninguém responde, porque há uma incapacidade de argumentar nos nossos políticos. Em todos!À excepção do primeiro-ministro!
É a pessoa que mais me confrange porque ainda não o ouvi responder a uma pergunta com argumentação. Até deixei de o escutar.
Então pensa que este Governo não sabe o que está a fazer?
Sabe sim, infelizmente. Sabe como destruir o Sistema Nacional de Saúde e o ensino público, como entregar as universidades aos privados... Sabe pôr de parte todas as conquistas do mundo civilizado.
Neste livro contesta o fim das ideologias!
Eu digo que não acabaram as ideologias.
Houve, então, um esvaziamento das ideias?
Os que dizem que as ideologias morreram têm uma ideologia: a actividade privada, o lucro e um sistema de governação que na aparência imita a democracia mas não o é realmente. Nós não temos democracia em Portugal, isso é fantasia.O que é que nós temos?
Um Estado corporativo como Salazar sonhou e nunca conseguiu. Realizámos o que desejava, que é o poder nas mãos de organizações profissionais.
Quem tornou esse sonho em realidade?
O Governo actual e os últimos… Foi uma evolução num país que era feito à medida para conservar o mais possível a sociedade tradicional em que Salazar acreditava. Portugal ficou no século XIX e como não era moderno não havia preparação para o que veio com o 25 de Abril . Voltaram-se aos defeitos antigos e acrescentaram-se os modernos. O movimento militar acabou com esse regime odioso de 48 anos sem uma transformação social geral. Imitaram-se modelos estrangeiros, houve a sedução pelo trotskismo, pelo maoísmo e por coisas que nem sabíamos o que eram, que resultaram no desencontro entre o importar de ideias e os programas que não tinham nada a ver connosco. Portugal continua a imitar o que se faz lá por fora.
Tags: Política, MFA, Revolução de Abril, Revolução dos Cravos, Otelo Saraiva de Carvalho, Salgueiro Maia, fascismo, Guerra Colonial, descolonização, Salazar
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