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Dérbi minhoto põe em campo uma rivalidade milenar

por SÉRGIO PIRES  

Dérbi minhoto põe em campo uma rivalidade milenar

Guimarães e Braga estão separadas por 20 quilómetros e historicamente nunca se deram bem. O futebol só ajudou a acicatar a querela  e coloca outra discussão em cima da mesa: qual  dos dois se afirmará como quarto grande?

A rivalidade entre vimaranenses e bracarenses não começou no relvado, mas nos livros de história. A relação entre vizinhos nasceu torta e é quase milenar. Braga era a cidade-estado religiosa e Guimarães o berço da nacionalidade, terra de D. Afonso Henriques. O símbolo dos dois clubes representa essa dicotomia, com os vitorianos, que nasceram em 1922 da fusão entre vários clubes da cidade, a adoptarem para emblema a estátua do "Conquistador" e os braguistas, fundados um ano antes, a decalcarem o brasão religioso do município, com a Nossa Senhora a carregar o Menino Jesus nos braços - dotando-o também de um laivo britânico, já que as cores do clube foram escolhidas pelo técnico húngaro Joseph Szabo, que sugeriu um equipamento semelhante ao Arsenal de Londres.

Historicamente a rivalidade foi provocada pelos privilégios da Colegiada da Senhora da Oliveira, localizada em Guimarães e apoiada pelo rei, o que desagradava aos arcebispos de Braga. Tal facto motivou confrontos e desavenças ao longo dos séculos, tal como a localização de vários pólos industriais e de ensino, nos anos mais recentes. Também nos últimos anos o futebol teve um papel determinante ao acicatar inimizades.

Um dos episódios mais marcantes aconteceu já nos anos 90, quando, após um jogo em que se sentiram prejudicados pelo árbitro, alguns adeptos vimaranenses se manifestaram na partida seguinte, empunhando um cartaz elucidativo: "Para sermos tratados assim, mais valia sermos espanhóis..." Estava dado o mote para que os vizinhos passassem a partir daí a apelidar os rivais, tão ciosos da nacionalidade, de espanhóis. Em Guimarães, devolveram a provocação e passaram a designar os vizinhos, tão orgulhosos da sua religiosidade, de marroquinos.

É um facto que nos últimos anos a rivalidade tem-se jogado bem mais à flor da relva. Sporting de Braga e Vitória de Guimarães assumem-se como claros candidatos a quarto grande do futebol português e isso ajuda a acicatar as discussões, quando não confrontos entre vizinhos.

Em Braga os arsenalistas acenam com o facto de serem o único clube minhoto a conquistar a Taça de Portugal (em 1965/66) e, sobretudo, com os bons resultados dos últimos anos, graças a presenças sucessivas nas competições europeias e agora com a liderança da liga. Do lado vimaranense, apresentam-se os números, também eles indesmentíveis. O Vitória tem mais sócios - 32 mil contra 20 mil do rival -, e mais público nas bancadas: nesta época a média de espectadores ronda os 18 mil, contra 14 mil dos bracarenses, mas a diferença é maior se atentarmos às últimas cinco épocas - 17 mil contra 12 mil.

Outra diferença prende-se com facto de em Braga haver muitos adeptos de outros clubes, com o clube local só recentemente a captar mais adeptos do concelho. A 20 quilómetros de distância, Guimarães orgulha-se de ser uma espécie de aldeia gaulesa no espectro clubístico: vitoriano que não torça só pelo Vitória é olhado de soslaio e jocosamente apelidado de "Vitorino". Mais: nenhum grande se permite a abrir uma casa ou núcleo de adeptos na cidade. As tentativas anteriores acabaram em ameaças e vandalismo.


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