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Trineto do conserveiro Sebastiantambém sabe fazer conservas de peixe

por JORGE FIEL  

Os 39 anos de Manuel T. M. Ramirez (usa T. M. para se distinguir do pai, que também se chama Manuel Ramirez) já chegam para formular a variante "trineto de conserveiro sabe fazer conservas" do provérbio "filho de peixe sabe nadar".

Nas últimas cinco gerações, através de três séculos, o peixe e as suas conservas têm sido o negócio dos Ramirez. "O que sabemos fazer é isto. É o mundo que a gente conhece", explica Manuel, trineto de Sebastian.

Este latifundiário andaluz veio para Portugal fugido às invasões francesas e estabeleceu-se do lado de cá do Guadiana, onde abundava o peixe - e começou a viver do mar, salgando o peixe para o conservar.

Em 1865, mal Sebastian soube, por um catalão, do método da pasteurização, começou a conservar o peixe numa lata esterilizada. Estava fundada a dinastia Ramirez que há mais de 250 anos reina no mundo das conservas.

Ao longo de três gerações, subiram pela costa - Vila Real de St.º António, Olhão, Albufeira. Setúbal - até que, em 1945, o avô Emílio deitou âncora em Matosinhos, onde está a sede e uma das fábricas (a outra é em Peniche) que produzem 40 milhões de latas de conservas/ano (25 milhões de sardinha e 15 milhões de atum), das quais a maioria (22 milhões) é exportada.

"2008 foi muito bom. Tivemos uma produção recorde e facturámos 24 milhões de euros. E o primeiro trimestre deste ano foi óptimo", declara Manuel, em três frases que são um oásis no mar revolto de más notícias que enchem os jornais e as conversas.

O sector conserveiro sofreu uma crise severa, a que só sobreviveram os mais aptos. "Chegaram a ser 300 as conserveiras. Hoje, somos pouco mais do que uma dúzia", diz.

Foi com engenho que os Ramirez ultrapassaram a maldição que costuma dizimar as empresas familiares na terceira geração. Para contornar os dois meses sem peixe (em Fevereiro e Março a sardinha anda anoréctica) começaram a congelá--lo em Dezembro. E, para consolidar as posições nos mercados externos, submeteram toda a produção aos procedimentos mais exigentes.

Manuel cresceu neste mundo de latas, cheiro a peixe e armazéns. Bem-disposto e extrovertido, com jeito para a música (toca piano de ouvido) e para as línguas (é fluente em cinco), pôs os seus dotes de comunicador ao serviço do negócio. Quando acabou o secundário, no Garcia de Orta (Porto), não teve dúvidas em especializar-se em técnicas de conservação, em Paris.

Como é bom de ouvido, Ramirez tem sabido tripular as preocupações dos consumidores com a saúde (oferecendo-lhes atum em azeite ou ao natural e sardinhas em azeite com baixo teor de sal) e as suas necessidades de refeições rápidas, pondo o atum a conviver, na lata, com grão, feijão-frade, milho e feijão vermelho, salada russa, etc.

Com 84 produtos e 40 mercados, Manuel tem a receita para que a empresa continue blindada à crise: "Cada vez menos falamos em preço. O nosso consumidor é de valor. A nossa primeira preocupação é a qualidade e segurança alimentar. O preço vem em último lugar."


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